Regressei de férias já tarde, pela fresquinha e depois de aproveitar o dia até ao outro dia, tudinho até ao ultimo segundo, ultima nesga de sol, a última onda, o restinho de cada segundo de férias que estavam a terminar. Cheguei a Lisboa já passava das 3 da manhã. Moro numa praceta cheia de pópozinhos que só saem ao fim de semana, nos dias de eleições, ou quando o rei faz anos, por isso depois de dar duas voltas fui estacionar o bólide no cu de judas, 3 dias atrás do sol posto e uma semana a escorregar por uma tábua abaixo e depois da difícil tarefa de encontrar um lugar onde coubesse o empecilho comecei a descarregar as cenas. E é pá, cenas é que não me faltavam.
Quando olho para trás, vejo atrás de mim dois negros de boné de pála e cheios de tatuagens - eu a somar preconceitos desde mil novecentos e troca o passo; pensei de imediato - Já foste. Vais ser assaltada. Mentalmente e num segundo revi tudo o que tinha e que podia ser roubado, relógio, telemóveis, 15 euros em dinheiro, cartões, máquina fotográfica, o carro. Siga. Venha o que tiver que ser. Aproximaram-se e educadamente disseram: Está tão carregada de coisas deixe-nos ajudá-la a levar as coisas até ao seu prédio. E toca de começarem a pegar em malas e sacos e saquinhos. E eu, meia aparvalhada... não é preciso, eu vou levando tudo com calma. Tenho tempo. Deixem estar. Ao que responderam: fomos ensinados a ajudar, e mais ainda uma senhora... e não temos nada para fazer, íamos mesmo para casa.
Fui falando com eles pelo caminho até à porta do prédio, perguntei - mas moram aqui, aonde, já é tão tarde, então vêm de onde? - tretas para tentar perceber onde moravam, de onde vinham e etc como se essa merda fosse importante depois de ser assaltada. Quando já estávamos na entrada insistiram em subir o lance de degraus até à entrada do elevador com os meus tarecos às costas, e aí voltei a pensar... é agora que vais ser assaltada, e se for só isso é uma sorte. Agarrei na chave de casa (pontiaguda e comprida) pronta a utilizá-la como arma, e no ferro do chapéu de sol com a ponta prontinha a acertar-lhes num olho - como se isso fosse o suficiente para derrubar dois grandalhões. Morria, mas morria a dar luta, é o que faço sempre mesmo que morra na praia. E nunca mas nunca, mostro medo.
Não houve assalto. Despediram-se com um "boa noite dama", eu agradeci e eles repetiram mais uma vez que seriam incapazes de me ver a carregar tudo àquela hora, sozinha, e passarem e não ajudarem - que não eram assim e que essa não era mesmo a onda deles.
Desta história fica mesmo o meu medo associado a um preconceito, e uma grande lição. Mais uma, daquelas que a vida não para de me ensinar.
Há dois tipos de pessoas: aquelas que dividem as pessoas em dois tipos e aquelas que não dividem. Arthur Bloch