domingo, 25 de setembro de 2016

Nada...





Nunca se sabe aquilo que basta. Também pode ser que nada baste.
Até pode suceder que a morte não seja bastante.

Herberto Helder

Eu e ele a trocarmos mensagens...
Beca, beca. Beca, beca.
Uma sms para lá, uma sms para cá. E mais outra.

Alguns minutos depois.

- Estás a conduzir!
- Yap.
- Posso te autuar sabias?
- Sei, mas adoras-me.
...
(Silêncio) - vários minutos de espera.

-  Não é verdade que adoras?
- Tão segura!
- Não sou. Mas adoro parecer.
- Adoro-te sim muito mais do que tu pensas. E fica descansada. Não faço nada.
- Nada? Não sei se nada é bom.
- Tu não existes!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sempre a ir... imperdoável é desistir.




imperdoável é o que não vivi, 
imperdoável é o que esqueci,
imperdoável é desistir de lutar, 
imperdoável é não perdoar, 
imperdoável é o que abandonei,
 imperdoável é dispensar a razão, 
imperdoável é pisar quem está no chão,
 imperdoável é esquecer quem bem nos quer,
 imperdoável é não sobreviver...

Jorge Palma


                                       

Imperdoável é deixar de acreditar que amanhã será um dia fantástico, que as minhas lutas diárias vão ser bem sucedidas, que na luta desigual entre a vida e a morte ganha a mais bela e não a mais forte e que o que é justo vai sobrepor-se a toda e qualquer injustiça. Imperdoável é não pensar que a vida vai sempre ser capaz de surpreender-me com coisas boas, que quem desejo vai ficando sempre do meu lado, que quem preciso não vai desistir de mim, que vou ter sempre beijos que não se esgotam no acto de beijar, que cada dia vai ser único e inteiramente meu, que palavras amigas estão mesmo ali ao virar da esquina, que abraços fortes ficam sempre à distância máxima de um pedido, que os braços serão sempre capazes de longos abraços, que não vai haver gente maldosa e mal intencionada, que vai haver sempre quem me faça soltar uma gargalhada, quem me dê a mão quando mais preciso, quem me ouça quando eu só quero desabafar ou que no silêncio diga tudo o que preciso ouvir, quem fale com os olhos e veja com as mãos, quem seja de tal modo especial que me preencha os dias e as noites mesmo na ausência, quem me repita constantemente em voz sussurrada ao ouvido, tu não existes. Quem sinta a minha falta e me faça sentir a falta.



Imperdoável é deixar de acreditar nas pessoas, duvidar da sinceridade, ter raiva à distância, perder tempo com coisas insignificantes e desgastar-se em zangas e conflitos que não levam a lado nenhum. Imperdoável é perder a esperança no futuro, esquecer a magia que há no brilho da lua e ignorar o calor do sol. Imperdoável é olhar o mar e não sentir o sabor a sal nos salpicos da rebentação e o cheiro a maresia em cada onda. Imperdoável é desistir dos sonhos, das viagens que ainda estão por fazer, dos fins de semana que esperam por nós, das caminhadas a lugares onde ainda não fui. Imperdoável é deixar coisas por fazer com medo do que ainda não se sabe muito bem, não cumprir vontades por regras rígidas de outros, desistir de escolhas por futuros arrependimentos, pensar demais e viver de menos. Imperdoável é esquecer que somos mortais e que a vida tem a duração de um fósforo, que raramente nos oferece segundas oportunidades e que o que hoje nos agrada amanhã pode nos deixar infelizes. Imperdoável é perder a alma de criança, passar pela vida de forma responsável e demasiado séria. Imperdoável é baixar os braços, perder as forças e desistir de acreditar. Imperdoável é passar pela vida como se não se vivesse. Imperdoável é não viver e não ser feliz.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Upss cortei-me...




Anda uma rapariga à cata de uma pedrinha mais bonita, mais reluzente no meio de uma amálgama de seixos e pedras roladas que possa ter algum significado especial e lhe acrescente a ela valor. Uma coisa assim em bom que lhe desperte o interesse. Encontra uma cheia de brilho, que brilha ao sol, que brilha à chuva, que reflecte o luar e a luz da manhã, acha até por dias que encontrou um diamante. Assim uma coisa extraordinária quase impossível de achar; com dureza 7 para enfrentar as dificuldades da vida, capaz de se deixar lapidar e biselar pela mão certa e apaixonada, capaz de fazer frente a tudo, e lado a lado com ela a todas as outras pedras do caminho. E na volta depois de dar uma volta completa a segurar a dita pedrinha brilhante, repara melhor... é vidro polido, daquele ordinário a quem deram uma esfregadela para ficar brilhante, coisa para não ter qualidade nenhuma, nem merecer o tempo nem a capacidade da rapariga em a segurar. Tanto brilho, e afinal não passa de um calhauzinho com dois olhos.. e dois pés...

Deixa-a cair. Outra mão voltará para a segurar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Vai não vai, e o cansaço fica...






"A morte usa-me incessantemente"
 
 Jorge Luís Borges

A Marta salta para o degrau da reanimação e inicía a reanimação cárdio-respiratória, decorrem 5 minutos, vejo-lhe o esforço. Sua as estopinhas e escorrem-lhe lentamente pela testa e pescoço as primeiras gotas de suor, está na hora de a substituir. Revesamo-nos enquanto a anestesista procede à entubação oro-traqueal do doente, laringoscópio - ouço-a pedir ao longe. o Pedrinho concentrado carrega o desfibrilhador. o Duarte prepara epinefrina, adrenalina para estimulação cardíaca. Insistimos. Ninguém desiste. Não se ouvem vozes na sala. O mundo em suspenso numa vida em suspenso. Aqui e ali o barulho de plástico ou papel a rasgar, do material que se vai encertando à medida que é necessário. A anestesista dá as ordens de comando com voz segura mas trémula na fala. Decidida mas entrecortada por monossílabos e gaguejos. Insuflar cânula, dar ao ambu, ventilar, monitorizar, medir oxímetria, gelafundina uma unidade em perfusão, a correr rapidamente. E já passaram 15 minutos. O tempo demora quando se espera por alguma coisa e voa quando se morre. Continuamos a insistir. O Duarte faz-me sinal para descer. Insisto mais uma vez, não saio logo, digo-lhe - espera. Sinto o cabelo colado ao pescoço, encharcado, sinto o suor escorrer-me pelas costas abaixo e à frente pelo meio das mamas até ao umbigo. Suor molhado, frio. Cheiro mal. Tanto cansaço. Fecho os olhos por uns segundos, é suficiente. O cirurgião olha para a anestesista, a anestesista olha para o cirurgião, num diálogo de surdos. Muito pouco se diz mas muito se fala sem nada dizer. O Duarte substitui-me no degrau da reanimação, já chega, salta daí. Obedeço. Paro e ele substitui-me. Sinto a pele a colar, sinto as mãos sujas e o corpo peganhento. Sinto a morte tão perto. E tudo continua. Não se desiste, aqui não somos malta de desistir. Passam mais dez minutos, a Judy avança e substitui o Duarte que desce com a camisa fora das calças e uma mancha de suor nas costas. Vejo-lhe o azul escuro do cós das boxers, e os pelos do peito por entre a abertura da camisa - brilham reluzentes do suor. De cada lado dos braços uma mancha enorme desenha-se na camisa. A Judy está num esforço tremendo, diz que sente câimbras nos braços e nas mãos e precisa que a substituam. A Picolé empurra-a e diz-lhe salta daí, agora sou eu... mulher pequenina, metro e meio de gente, cheia de genica, salta em cima do tórax do doente e afunda-se com uma força, e uma raiva incríveis, desfibrilhador novamente. 1, 2, 3. Insiste, não desiste, numa sequência interminável que se arrasta em minutos que parecem não ter fim.

Mas têm fim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Erros fatais...





Chama-se Mariana.

Apaixonada pela vida, pelo amor, e mais ainda por ele. 
Há anos que repartem dias, horas dos dias, algumas noites, histórias a contar, olhares.
Ela ama-o. Ele não. Diz-lhe que gosta dela. Ela acredita que gostar é mais ou menos bom.

Envolvem-se em mais um fim de tarde já quase crepúsculo. O entardecer traz o final do dia e a paz, e com ele o toque das mãos que deslizam pelo corpo, pelos cabelos, os beijos sôfregos, a paixão e o desejo acompanhados das mesmas gargalhadas de sempre, do mesmo sorrir e do mesmo sabor. 

Ela beija-o. Mais e mais. Sente-lhe a vontade e o prazer. Envolvem-se mais ainda. Corpos e pele respiram a um. Ritmadamente.
Ao longe, sussurrado baixinho, ouve-lhe a voz entrecortada por gemidos, e pela respiração que ele já não controla.

Tão bom. Ai tão bom, Susana!