sábado, 20 de agosto de 2016

Fins de tarde...

O meu fim do dia

Nove da noite. O sol já se põe. Permanecemos ainda na praia. Quilómetros feitos à beira mar, intercalados com beijos e gargalhadas. E ofensas minhas, várias... És mesmo parvo. Idiota pá. Nunca te chamaram otário? Tanto tamanho e tão pouco juízo. Risos. Mãos entrelaçadas.  Cai a noite e o frio. Chegam as redes do peixe, respira-se o cheiro a mar e a pescado acabado de chegar. O vento assobia com força. Despenteia-me. Perdes tempo com a ponta dos dedos a retirar-me cada farripa colada à cara. Penteias-me suavemente com as mãos a tentar alinhar o que o vento descompõe. E eu... 

Eu naquele segundo, fecho os olhos e acredito que talvez seja isto que me faltava.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Por mais voltas que dês...




- Já viste que por muitas voltas que dês escolhes sempre o mesmo tipo de homens?
- Como assim? Não percebo.
- São todos iguais. Têm todos os mesmo cabelo, o mesmo corpo, e fazem todos a mesma coisa. Repara lá bem.
- Pois é. Tens razão. Não tenho culpa. Nunca tinha reparado nisso. São os que me despertam interesse.
- São todos iguais. Igualzinhos. Tens que sair desse formato, já viste que não resulta.
- Agora ando interessada num buéee da giro que é qualquer coisa num Ministério. Vou-lhe perguntar.

Umas horas depois lado a lado em amena cavaqueira numa caminhada...

- Então a Patrícia disse-me que és do Ministério da Administração Interna. Que fazes lá?
- ... riso.
- É pah não me digas que não podes dizer. É segredo? Ok, és ministro.
- ... riso. Não sou ministro mas mando alguma coisa.
- Então se mandas e não és ministro, não me digas que és secretário de estado!
- Também não. Mas continuo a dizer que mando alguma coisa.
- Mandas... mandas vir copos de água, toalhas de papel.
- Também não. E não gosto de dizer o que faço.
- Diz lá, vá lá Sr Ministro... eu prometo guardar segredo. (eu a fazer uma cruz com os dedos sobre os lábios)
- Sou do Núcleo de Investigação Criminal da *Gnr.
- Medoooo! Já dei para esse peditório. Ó pá de ti quero distância.
- Não sei minha menina se tal a partir de agora vá ser possível... risos


Cada tiro cada melro. Por mais voltas que dê, a minha vida é uma rotunda.

Mais uma etapa neste meu ciclo de vida...

...



















A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum.

William Shakespeare


Começa aqui uma nova etapa de vida. Mais um ciclo. Talvez por ironia do futuro, das muitas coincidências de que é feita a minha vida, haja aqui e ali pormenores que parecem iguais. Não são. Há outra personagem, há só em comum a mesma profissão. É azar eu sei... Já é a terceira vez que este mesmo filme se repete. Mas vou acreditar que à terceira é de vez. E que é desta que a personagem não morre no fim, não há funerais, nem choro, nem lágrimas a fio, e a totó da miúda apaixonada não aparece nas festas com o pote das cinzas do defunto debaixo do braço, a lembrar-se de tudo o que viveu mas a afirmar de cabeça erguida que está a tentar esquecê-lo.

Claro que a parva da miúda de vez em quando faz mentalmente comparações, e analisa minuciosamente detalhes da nova personagem, e sente medo e uma tremenda insegurança com isto tudo, mas está disposta a apostar neste novo ciclo e a lutar por ele. Por alguma razão esta "impossível" - altamente improvável coincidência, aconteceu. Não há acasos, acredito que no fim há unicamente a vida.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Inteligência em demasia parece que atrofia... até rima e tudo!

Jesse Owens contra Hitler.

Fotografia feita em 1936 durante os Jogos Olímpicos de Berlim. O atleta norte-americano, negro - Jesse Owens - ganhou quatro medalhas de ouro, contrariando o desejo de Hitler de mostrar a supremacia branca. A fotografia da cerimonia é uma das mais emblemáticas da história do desporto. Fotografia: Associated Press


Ser inteligente é bom. Pelo menos os entendidos dizem que sim, eu ainda não o comprovei pessoalmente, mas adiante. E toda a gente sabe que ser mesmo muito inteligente deve ser melhor ainda. Só que não. Parece que não é. No meu percurso de vida cruzei-me em algumas situações com gente realmente muito inteligente, capaz de arrasar a melhor das teorias, capaz de aniquilar o melhor dos argumentos, ou capaz de me reduzir à insignificância no melhor dos diálogos, sim, tudo isto verdade, mas comprovo também que pessoas muito inteligentes roçando a genialidade têm tendência a um egocentrismo exagerado, quase doentio. Vivem para o culto do eu; eu tenho razão, eu sou melhor, eu sei, eu mando, demonstrando por isso pouca tolerância para  com os outros, pouca empatia, isolando-se do exterior e vivendo em êxtase com o ego.

A maior parte das vezes recorrem à crueldade para espezinhar quem os rodeia, afastam-se com arrogância e desdenham da amizade ou lealdade que lhes é oferecida e transformam-se rapidamente em seres demasiado egoístas, manipuladores, vingativos, desprovidos da capacidade de se relacionarem com os outros, de aprenderem qualquer coisa com os menos inteligentes ou virem sequer a sentir culpa pelo seu comportamento.

Tenho uma teoria. Só minha. Idiota qb, e que vale o que vale. Como somente os idiotas têm certeza de tudo e garanto-vos, digo isto com certeza absoluta. Demasiada inteligência aniquila o lado sensível, colorido e emocional do ser humano. Torna os génios, racionais, focados, apáticos para o exterior, bloqueados para a vida e para os outros, gente sozinha e infeliz.

Sempre orgulhosamente e inteligentemente sós!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Como culpar o vento pela desordem feita, se fui eu que esqueci as janelas abertas? (frase retirada da Internet)





Gostei de ti quando me apresentaste o teu livro de poemas publicados e construíste um poema para mim. Gostei de ti quando li, sorvi o teu livro ainda por publicar e acabar. Gostei mais de ti ainda quando deitaste por terra o mito parvo, que letras, sensibilidade e farda de autoridade não combinam. Gostei de ti quando me apresentaste a neve e os Alpes e me deixaste adormecer todos os dias nos teus braços num abraço. Gostei de ti quando adormecíamos todos os dias com sexo e despertávamos de manhã já com fome um do outro. Gostei de ti quando dançámos em coreografias desenhadas e voei em piruetas pela sala. Gostei de ti quando conheci o primeiro homem que adora dançar. Gostei de ti quando me levaste pela primeira vez ao futebol. Gostei de ti quando me conduziste pelas estradas que não existiam à descoberta dos Açores. Gostei de ti quando nos rimos lado a lado a andar de baloiço. Gostei muito mais de ti quando o meu prazer era muito mais importante que o teu prazer e o nosso arrojo e audácia desafiavam regras. Gostei de ti quando te preocupavas em saber se eu descansava, se comia, se estava bem e era feliz. Gostei demasiado de ti quando esperei que o dia que era nosso fosse mesmo nosso.

O que gostei em ti, procuro e não encontro. Perdeu-se algures. 
Gostei de ti. Agora já não gosto.