terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O autocarro das 11h23m...




Fim de semana...

A sala de emergência nunca parou, vários doentes entrados e várias transferências recebidas de outros hospitais. Mais trabalho do que é normal devido a muitas urgências do país sobrelotadas. Hoje o meu mundo girou à volta dos olhos azuis mais límpidos e brilhantes que vi. Sou fascinada por olhos azuis. (e verdes a cor de olhos do rapaz do meu coração). Recebemos uma vitima de atropelamento do sexo masculino, 26 anos. Atropelado por um autocarro quando se dirigia para a faculdade.

Score 10 à entrada, sonolento, prostrado, com sinal evidentes de dor, fractura cominutiva do fémur direito, possível fractura dos arcos costais à direita, abdómen tenso e distendido, escoriações várias nos membros superiores e na face, deformação com eventual fractura dos ossos próprios do nariz. De resto, respondia a ordens simples, falava baixo mas de forma audível e expressava-se com coerência e sentido. Perfeitamente consciente e orientado no espaço e no tempo.

Falou-me que ia para a faculdade, disse-me o que estava a estudar, em que ano estava, com o olhar indicou-me o telemóvel, e sussurrou-me em voz muito baixa o nome da namorada. Procure aí "Amor", ela chama-se Tânia, ligue-lhe por favor, ela vai ficar à minha espera no sitio do costume, pensa que eu me atrasei, por favor ligue-lhe. Não quero que ela fique à minha espera, ela não vai desistir de esperar por mim, e eu não vou poder ir... ligue-lhe por favor.

Distraí-me alguns minutos, remexi nos bolsos do blusão à procura do telemóvel, desbloqueei-o, olhei o ecrã e procurei a lista de contactos. E de repente oiço o meu colega Pedro gritar: Paragem... chamem a anestesia. Paragem! Atirei com o telemóvel, corri a bipar a equipa de anestesia, puxámos o carro de emergência, começamos de imediato manobras de reanimação cardio respiratória e todo o suporte básico de vida e a equipa de cirurgia adiantou o suporte avançado de vida começando o processo de entubação oro-traqueal e de reequilíbrio hemodinamico.

Vinte minutos depois...
 
A linha de ecg continuava isoeléctrica, os batimentos cardíacos mantinham-se em 26 durante a estimulação cardíaca, para chegarem a zero no momento de pausa. Todos tentávamos salvar o rapaz que tinha os olhos azuis e queria ser engenheiro. Insistimos mais meia hora com desfibrilhador activo, várias tentativas feitas, diversas atropinas, duas delas intra cardíacas. A linha cardiaca continuava isoeléctrica, recta, sem apresentar sinais vitais. Oxímetria muito baixa, batimentos cardíacos nulos, tensão arterial 4, ausente. Olhámos uns para os outros. De repente o chefe de equipa disse - Parar, declaro o óbito às 11h 23m. Já não adianta continuar, tem lesões cerebrais irreversíveis por anóxia cerebral e as hipóteses de sobrevivência não existem. Fim. E de imediato retirou as luvas e atirou-as para o chão. Eu suava, a farda colava-se-me às costas, sentia o cabelo molhado junto ao pescoço, as mãos doíam-me e tinha os dedos inchados, desci do degrau da ressuscitação. Pelo chão roupa dele cortada à tesoura, tropecei nuns ténis de marca, olhei-lhe de relance a carteira e o telemóvel, baixei-me e apanhei uma sebenta de engenharia, molhada, suja, encardida de lama, quase ilegível, dizia qualquer coisa que não percebi bem mas que tinha a ver com resistência de materiais.

Comecei a afastar-me dali. De relance olhei mais uma vez o rapaz que de olhos abertos me mostrava os olhos azuis mais lindos que vi até hoje, já menos brilhantes mas igualmente belos. Hoje o autocarro do rapaz dos olhos azuis passou às 11h e 23m, para qualquer um de nós pode estar na próxima paragem e passar para nos apanhar mesmo que não queiramos entrar. Todos sabemos isso.

Aproveitem a vida. Em qualquer cidade, a toda a hora passam autocarros.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Corpos...




Procurar-te-ei até te encontrar.
Mesmo que só te encontre em corpos.
Onde tu não estás.

Herberto Helder

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Deixar acontecer...






Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho.

Martha Medeiros



Quando o ano começa há sempre um renovar de objectivos. Há quem queira ficar mais magro, fazer mais exercício, deixar de fumar, ler mais, aprender mais qualquer coisa ou sei lá mais o quê. Eu tenho como objectivo deixar de querer controlar o destino. O meu e o de quem me acompanha.

Parece uma coisa estranha mas eu gosto de planear a minha vida, saber com antecedência o que vou fazer no próximo fim de semana, ou já em Março, ou o que vou fazer no feriado tal de Junho - marcado e agendado - ou onde vou nas férias de Verão. Planeio tudo exaustivamente e habituei-me a isso ao longo dos anos em que pelos imensos acasos da vida fui conjugando folgas e turnos e mais turnos, e aproveitando de forma meticulosa todo o pouco tempo disponível não restando margem para desperdício. 

Este ano pediram-me para planear menos e deixar mais a vida acontecer. Planear é algo que está enraizado em mim, que faz parte do meu eu e nem sempre é fácil cedermos um pouco de nós. Disseram-me esquece a organização, os ínfimos detalhes, deixa-te ir ao sabor da viagem. Prometi tentar. Vamos ver se consigo. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fim de ano diferente, amanhecer diferente...





Do meu fim de ano não existem fotos. Nem uma para contar como foi. Não tive tempo de as tirar. Não fui capaz de suspender o momento para fotografar. Foi um fim de ano mágico. Fiz piscinas para trás e para a frente repartida entre a Serra de Sintra onde estavam todos os meus amigos, a melhor sangria de frutos vermelhos do mundo, o jogo das cadeiras, as macacadas do Tiago, as gargalhadas à volta da fogueira... e outro local do outro lado do rio onde num sitio inacessível se encontrava de serviço a outra metade da minha vida. Há quatro anos que ele passa a noite de fim de ano a trabalhar, em Op e este ano resolvi estar presente à meia noite e passar com ele. Subimos a um local no alto do mundo onde existe um castelo, local com uma vista deslumbrante, só nós e as luzes da cidade ao fundo, o rio à volta a espalhar magia. Levei flutes, espumante, passas, morangos e comemorámos os dois. Sozinhos. Sem vivalma à volta. A beijarmo-nos à meia noite enquanto mil luzes de fogo de artificio brilhavam ao longe em dezenas de pontos da cidade. E depois ainda houve tempo para que o ambiente fizesse acontecer entrarmos no novo ano da melhor forma possível. Inesquecível.

Já tarde, ele regressou onde era suposto estar e nunca ter saído e eu regressei ao local onde me aguardavam os meus amigos. E a noite continuou igual a si a mesma como era suposto ser para cada um de nós em diferentes pontos da cidade - até de manhã.

 Para o ano logo se vê como vai ser.