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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fósforo...





um acaso da vida trouxe um dilúvio. uma tempestade que entrou pela minha vida dentro e arrasou a casa construída, os alicerces das escolhas e a recta do esboço desenhada a traço fino sem rasuras ou erros. borrou-se o traço. já não resta nenhum rasto do que em tempo foi a linha escolhida. entrei numa zona obscura e fria. de mal a pior. molhada até aos ossos. em compensação num fósforo ateou-se um fogo. uma chama intensa e viva. uma labareda de luz e calor que aquece os dias e ilumina a vida. aconchegante. quente. a queimar. e o calor seca o dilúvio, amaina a tempestade e trouxe de volta o brilho dos sonhos. fazem-se planos. desta vez sem linhas rectas. curvas e mais curvas riscadas a lápis fino, rasuradas ao sabor da ondulação. 

e não quero saber. mais nada importa. voltei a sentir-me eu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Quem tem cu tem medo...





Do one thing everyday that scares you
Eleanor Roosevelt


Eu tenho medos. Tenho muitos até. Tenho medo da doença - talvez o meu maior medo, tenho medo de perder, até porque sei bem o que é perder e sei bem o quanto dói no corpo a falta que alguém nos faz, e tenho medo do sofrimento em si... de todas as formas de sofrimento.

Dos medos em geral, combato-os de forma a que não me sufoquem, luto contra eles com todas as minhas forças e não deixo nunca que me atrapalhem a vida. Mas todos os dias somos postos à prova, todos nós, e de muitas formas diferentes. Lembro-me que quando tirei o curso de enfermagem e ainda era muito novinha sempre que tinha que acompanhar um doente para outro hospital ou apenas até ao bloco operatório começava com as palmas das mãos a suar, os joelhos a fraquejar e recordo-me de algumas vezes até me sentir agoniada... ainda a ambulância não tinha saído ou ia eu no elevador e já estava para ali com o estômago às voltas agoniada que nem uma pescada. O meu medo era falhar. E eu não podia falhar.

Ainda ontem tive um teste de medo. 

Tinha que atravessar de uma margem à outra de um rio, um aqueduto a muitos metros de altura sobre um piso de pedras meio arredondado e com 30 cm de largo, a coisa correu bem até meio, lá fui indo devagar, tentando por os pés nos sítios certos, mas quando cheguei quase a meio comecei a tremer e a ter a sensação que ia cair, e se caísse a coisa ia correr mesmo muito mal. Tive tanto medo, mas ali não havia alternativa. Voltar para trás não podia porque havia gente atrás de mim e não passávamos dois ao mesmo tempo, (e a altura mantinha-se), tinha que seguir em frente. As alternativas eram cair ou prosseguir. Parei... respirei, tentei não entrar em pânico, controlei o medo, proibi-me de olhar para baixo para apenas olhar em frente, e segui até ao meu destino, só faltavam uns 5 metros... e consegui. No final tive orgulho em mim, em ter conseguido lutar contra o meu medo.

É de pequenas vitórias que se fazem as grandes vitórias e está provado que não são os mais corajosos que são os melhores guerreiros, são aqueles que apesar de terem a percepção do medo e o respeitarem, o controlam também melhor.