Não acredito em nada perfeito, o mais perto que estive da perfeição foi na natureza e mesmo assim há coisas que podiam ser mudadas e que pelo facto de existirem me espantam. Acho até que a perfeição se é que existe é enfadonha, e inimiga do óptimo. No entanto todos a buscam. A qualquer preço, de qualquer forma. Vivemos num mundo de faz de conta. É mais importante parecer do que ser. Interessa parecer rico mesmo que não se tenha onde cair morto e as finanças já nos tenham penhorado tudo menos os elásticos das cuecas, interessa parecer culto e com um cargo importante mesmo que tenhamos feito a quarta classe para adultos à noite e mal, e depois agarrado com unhas e dentes um curso das Novas Oportunidades, ou tão somente fazer uma licenciatura ao Domingo e com equivalências a cadeiras que nem sabíamos que existiam.
A vida tem destas coisas, destas singularidades que fazem alguém parecer o que não é, e ser aceite e desejado pelo que aparenta ser. Recebi na minha última noite uma paciente do sexo feminino, por um motivo que vou omitir voluntariamente precisamente para preservar o seu estatuto de vedeta, sobejamente conhecida do mundo da moda, linda de morrer (dizem... eu não acho), daquelas por quem os machos se babam na hora e que deixou os meus colegas de equipa de olho bem arregalado para depois abrirem a Caixa de Pandora e finalmente terem o privilégio de ver in loco o que estava por baixo do vestido justo. Tinha um corpo magro, de formas perfeitas, sensual, bonito à vista.
Quando começámos a despi-la fomos sendo presenteados com um intrincado mapa de cicatrizes dignas de uma sobrevivente à dura guerra do Ultramar. Acho até que há veteranos de guerra com menos marcas na pele. No tórax, marcas de dois furos, uma debaixo de cada axila com respectiva cicatriz para colocação de implantes mamários de volume muito acima do normal e desejável num corpo extremamente magro, demasiado até. Junto à auréola do mamilo duas cicatrizes bem visíveis consequência do ajuste e centragem do mamilo ao novo volume. Mais abaixo no abdómen junto à linha do púbis uma linha fina assinala o território de uma abdominoplastia e nas nádegas vários furos, buracos mesmo de drenagem linfática de gorduras, vulgarmente chamada lipoaspiração.
Por esta altura o meu colega Pedro já tinha dito baixinho e após constatar a sua extrema magreza onde se contava o numero de costelas, e o rebordo dos ilíacos ... porra isto não é uma mulher é um crucifixo! Ao que o meu colega Duarte tinha respondido - elas e a mania de serem uns cabides, uma mulher quer-se com curvas, com chicha para agarrar; e quase todos nós sorrimos com aquela afirmação que nos pareceu tonta. No pescoço, e na face junto à inserção do cabelo cicatrizes várias bem disfarçadas por maquilhagem e ocultas de plásticas para correcção da face, e no rebordo dos lábios marcas de picadas de agulhas, muitas, imensas, para introdução de botox, que dá às mulheres aquelas maravilhosas beiças de pato, e que para mim é mesmo é boca de peixe Charroco. Quem lhes disse que aquilo era bonito enganou-as. Aquilo é artificial, completamente ridículo e feio que dói.
Não sou moralista nem preconceituosa (ok se calhar um bocadinho) - tenho dias, acho que cada um faz com o corpo que por acaso é seu, aquilo que muito bem quiser, mas substituir pequenas imperfeições por outras imperfeições envoltas em dor e talhadas a bisturi e agulhas não me parece lógico. Sou uma mulher de carne e osso. Imperfeita, mas gosto muito de mim. Prefiro de longe a minha celulite no rabo a marcas de furos nas coxas, prefiro o meu peito pequeno a duas bolas de silicone separadas pelo infinito, firmes, hirtas e rijas ao tacto, prefiro a minha barriguinha que é minha a passar por uma anestesia e uma dolorosa cirurgia e uma cicatriz para sempre...
Mas não somos todos iguais...e a vida continua a ser feita de escolhas e de aparências.