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terça-feira, 10 de maio de 2016

Este blog que maioritariamente fala de nadadecoisanenhuma, às vezes (muito raramente) fala de coisas com um lado muito sério...


Como sei o que isto é... a propósito de um texto de uma colega de trabalho.

A pressão para vir trabalhar de graça (porque onde trabalho não pagam horas extra). Nem no teu nem em nenhum hospital, as horas ficam em Bolsa numa coisa nova inventada pela gestão hospitalar denominada Bolsa de Compensação que por detrás do nome pomposo traz escondida em letras pequeninas outra informação - horas a gozar quando houver pessoal para isso e o serviço o permitir. O pior é que o serviço nunca permite e ao fim de cada ano essas horas renovam-se e desaparecem como que por magia. Estavam lá para as gozares, não gozaste, problema teu.

A depressão que leva a baixas já relativamente frequentes. A falta de motivação e de reforços positivos. O aumento da emotividade (que muitas vezes nos faz até descarregar em cima dos colegas, que são os que estão mais à mão). O sentimento de impotência (queria transferência e não ma dão porque "não há ninguém" para vir para o meu lugar). Sabes quantos profissionais há na minha unidade com problemas de depressão? Seis pelo menos, (casos conhecidos) seguidos em consulta e medicados. E colegas que se suicidaram? Até agora já foram 4. Há mesmo quem não aguente as dificuldades da falta de sono, a pressão diária a que estamos sujeitos, a morte, e toda a dor a que assistimos impotentes mas sempre com um sorriso de força e uma palavra de esperança no rosto para com os outros.

A vontade de chorar no trabalho. Os ataques de choro no carro e em casa (às vezes começam já no parque de estacionamento do hospital. Ver as folgas como um oásis. (depois passá-las a dormir, exausta, triste como um trapo). A vontade que dá de mandar tudo à merda quando nos pedem ainda projectos extras, e formações adicionais, e actualizações constantes e no fim ainda nos atiram com as obrigatórias certificações de qualidade. Temos que nos manter actualizados, fazer formação continua continuamente, apresentar trabalhos nas sessões cientificas do hospital, posters ou trabalhos em congressos, ser avaliados, cumprir todos os requisitos, e pelo meio aceitar tudo o que nos é imposto sem reclamar. Somos números, somos produtividade, os doentes já não são apenas doentes, são utentes ou clientes, temos gestores de camas, gestores de material e custos, auditorias, avaliações de desempenho.

Estou nas Ilhas, mas a realidade é transversal. Aí, aqui, em Alguidares de baixo ou em Freixo de Espada à Cinta é tudo igual em Portugal.


Somos números, carne para canhão, despojos em socas, com o peso do mundo em cima, agrilhoados na pior prisão de todas... com a doença e a morte ali ao lado.


Nurse Susan


Por todo este esforço, e para quem pensa que grande responsabilidade, abnegação e vocação são bem pagas. A realidade é esta...

A remuneração / hora é de 6.50. E mais 25% do valor hora aos sábados, 50% do valor hora aos Domingos e Feriados - Natal e Fim do Ano incluídos. (dão qualquer coisa como mais 26 euros por turno (3.25 euros à hora, vezes 8 horas de trabalho) ao qual vão ter ainda que deduzir todos os impostos à taxa em vigor, como tal o resultado é pouco mais do que 20 euros por prescindirmos obrigados de estarmos em família, com amigos, de vermos os filhos abrir os presentes, enfim com os nossos. No meu caso que sou enfermeira graduada com vinte anos de serviço e uma pós-graduação, a remuneração é 8.50 à hora. Há dez anos que temos as carreiras congeladas e há dez anos que não temos qualquer aumento de ordenado, nem uma décima percentual. Há 3 anos que fazemos mais 5 horas semanais, 20 horas por mês que perfazem 240 horas anuais sem receber mais um cêntimo. Se precisam de pessoal que paguem as horas a mais, nada contra.

E sim já me aconteceu vir no caminho para o hospital e os joelhos tremerem-me de tal forma que batiam no volante, e é entrar no hospital para fazer um turno e não saber se vou ter que seguir horário e a que horas vou sair, é ter coisas combinadas e ter vida para além do trabalho e ter que desistir de tudo porque tenho que cumprir mais do que devia porque assim mo exigem. É sentir medo de perder o emprego. É a pressão todos os dias. É ter medo de falhar. É calar muita coisa porque assim é preciso. É contar até dez e respirar fundo. É fechar os olhos e fingir que não vejo. É dizer siga à falta de condições de trabalho, ao material que não presta, e a tudo o que não posso mudar. É obedecer sem querer saber as razões.

E é de facto tanta coisa...

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Explicado e bem, como se eu tivesse 5 anos...



Bastar ler para perceber o que muitos ainda não perceberam. 



Interessante como com poucas palavras e em meia dúzia de linhas se faz uma previsão muito rigorosa sobre quem anda a enganar quem, quem ainda não enganou quem, e quem irá brevemente enganar quem. Magnifica futurologia sobre este admirável mundo nosso, aquele que gira em torno do ouro negro. E assim vai indo o mundo.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Desenhar em Abstracto a vida...




Alguém disse um dia que as histórias só acontecem àqueles que são capazes de as contar. Do mesmo modo, talvez, as experiências só se apresentem àqueles capazes de as viverem.

Paul Auster, in A Trilogia de Nova Iorque

Riscos e rabiscos. Rasuras. Escrever a vida de um rasgo. Intensamente. De um fôlego. Tão feliz e inspirada. Tentar a letra mais bonita, o arabesco mais perfeito, as palavras ordenadas na linha certa como carneirinhos perfilados num rebanho. Só as bem escritas e as correctas. Ensaiar vezes sem conta. Exigir a perfeição e acabar por borrar a escrita. Manchar de tinta a cara, e afogar o desenho em lágrimas. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Murros no estômago com apenas palavras...



"Esta será a nossa vida. Todos os dias, conforme o ritmo estabelecido, sair e voltar, trabalhar, dormir e comer, adoecer, curar-se ou morrer.
... Até quando? Mas os velhos riem-se desta pergunta; por esta pergunta reconhecem-se os recém chegados. Riem-se e não respondem; para eles, desde há meses, desde há anos, o problema do futuro longínquo esmoreceu, perdeu qualquer intensidade, diante dos problemas bem mais pungentes e concretos do futuro próximo: quanto haverá para comer hoje, se irá nevar, se haverá carvão para descarregar. Se fôssemos capazes de raciocinar, deveríamos resignar-nos a esta evidência, de que o nosso destino é perfeitamente impossível de conhecer, de que qualquer conjectura é arbitrária e perfeitamente carente de qualquer fundamento real. Mas os homens só muito raramente são capazes de raciocinar, quando o que está em jogo é o seu próprio destino, preferem em todos os casos as posições extremas; por isso, conforme os seus caracteres, entre nós uns convenceram-se imediatamente de que tudo está perdido, que aqui não é possível viver e que o fim é inevitável e próximo; outros convenceram-se de que, apesar da extrema dureza da vida que nos espera, a salvação é provável e não está longe e, se tivermos fé e força, voltaremos a ver as nossas casas e as pessoas amadas. As duas classes, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória nem coerência, oscila entre as duas posições limites, conforme o interlocutor e o momento.

Toquei o fundo. A apagar o passado e o futuro aprende-se muito rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário se encontro algures uma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence: tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite; alguns entre nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos."

Se Isto É Um Homem - Primo Levi.

E não são precisas mais palavras. 

sábado, 30 de janeiro de 2016

Next...


Tentativa e erro. Falhar e falhar outra vez sem medo de repetir fracassos. Dói, ah pois dói. Dói como a porra, mas não há como ser feliz sem insistir naquilo que nos faz feliz e essa é a única certeza que tenho. Arriscar tudo com a hipótese de perder, esmifrar o corpinho a lutar sem nunca deixar de pensar que no final bater com as trombas no chão e foder as beiças pode muito bem ser o cenário provável, e mesmo assim esgravatar com unhas e dentes até ao limite do impossível para que a vida faça acontecer.Fica a sensação boa de luta contra o poder paralisante e absorvente do medo. A imensa força que é minha. Dever cumprido. Next...

Na vida são as coisas erradas que nos fazem a vida parecer certa.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O karma é fodido...




Chama-se Teresa tem 83 anos, perdeu há 8 anos o marido, acabou de perder o filho que se suicidou há um mês na África do Sul, país onde há muito vivia. E decidiu ela também matar-se. Nada de novo nesta história, são às dezenas as pessoas que apenas num dia decidem matar-se. Não concordo com a opção mas viver ou morrer é uma escolha. E as escolhas são individuais. Respeito a decisão desde que não arraste quem queira viver por simpatia. A Teresa chega já à emergência em morte cerebral, score 3, fracturas múltiplas dos membros, da bacia, e rotura de órgãos internos - víscera oca - com hemorragia activa. Aos 83 anos e perante este quadro não há muito a fazer. O irónico disto tudo é que do céu não caem só estrelas, às vezes tijolos (em cima de mim já caíram alguns) caem também pessoas. A Teresa atirou-se de um 3º andar de um prédio velho de uma rua movimentada do centro de Lisboa, daquelas com comercio e gente atarefada que sobe e desce ruas com pressa em chegar.

Apresento-vos agora o João, bancário, daqueles que tem sempre hora para entrar e nunca hora para sair, 31 anos, nas horas vagas conta-me que quer faça sol ou chuva e até muito frio faz umas ondas em Carcavelos e que por acaso naquele preciso momento e porque invariavelmente mais uma vez ia ter que prolongar o horário, saiu do Banco por uns breves minutos, numa de vou ali mesmo ao lado rapidinho comer alguma coisa que estou a ver que isto do balanço vai prolongar-se. O João saiu do trabalho para ir lanchar e levou com uma simpática velhinha, aborrecida com a vida e desiludida com os muitos anos de sonhos adiados pelos costados abaixo. É o típico caso de estar no lugar errado à hora errada, ou a justificação de que inexplicavelmente os impossíveis acontecem, ou a minha versão que a porra do karma é fodido, e por muitas voltas que dês e muita merda que faças, quando chega a hora H não há mesmo volta a dar. O que tem que ser tem muita força mesmo que tu e toda a gente ache que não mereças.

O João tem secção de medula e vai ficar paraplégico. Ele ainda não sabe porque ainda ninguém lhe disse, mas eu já sei. E mais uma vez dou por mim desiludida com a gestão do deve e haver da contabilidade celestial. Pergunto-me porque a vida prega partidas destas a quem não merece? A maioria das minhas perguntas não são explicadas pela física, nem pela matemática, nem creio que haja alguma ciência que me esclareça do que não entendo.


Já vos disse que o karma é fodido?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Qual o valor do perigo?

Cada uma destas pequenas cápsulas ovais de cor branca que se sobrepõem ao longo de todo o comprimento do intestino corresponde a uma dose de 10 gramas de cocaína.


Chega à urgência acompanhada pela Policia do Sef, passada uma hora chega a Policia Judiciária que toma conta da ocorrência e da nossa "doente". Sentada num banco, isolada dos outros doentes, cabeça baixa, aguarda. Aguardamos todos que a medicação que fez assim que chegou faça efeito. Pode levar horas, já tem acontecido levar dias, depende tudo de muita coisa, da capacidade do seu organismo para eliminar resíduos, do peristaltismo intestinal, da reacção do organismo às várias drogas oralmente e endovenosamente administradas. É um processo complexo.

E foi um processo complexo a deglutição de 90 cápsulas de 10 gramas de cocaína, o que perfaz no total 900 gramas de cocaína ingerida em bolotas de pequena dimensão revestidas por uma película transparente, semelhante ao látex mas muito mais fina que o látex normal. Esta apresentava-se como cocaína em pó, mas também há cocaína liquida e muito mais difícil de detectar e claro também muito mais perigosa de transportar. Não vou falar do processo de transporte, de como são detectados os body packers ou correios de droga, na gíria chamados de "mulas", quais os sinais que os denunciam e como é feita a selecção "aleatória" dos escolhidos em cada voo. Isso não é importante para mim. Acabo sempre a falar com eles. Gosto de o fazer. Em diferentes línguas mas quase sempre na minha, em português do Brasil, ou em espanhol Colombiano ou Argentino.

Vou-lhe chamar Denise. É Brasileira, tem 25 anos e um ar bronzeado de menina de Copacabana, cheia de dias de praia, sol, calçadão e vida louca, mas percebo depois que não. Vem de Fortaleza, de uma zona pobre. Fala dos filhos que ficaram por lá. Fala do homem com quem vive que ocasionalmente lhe bate e a explora, fala do trabalho que não tem e dos biscates que faz à noite numa discoteca. Acho que não me quis dizer tudo mas eu entendi o resto. Ou pareceu-me entender, já não sei. Fala-me da proposta que lhe fizeram em fazer esta viagem à Europa. Pergunto-lhe quanto lhe pagam. Responde-me 5 mil euros. Acrescento que para o risco de ser presa e para o risco de morte inerente a todo o processo me parece muito pouco. Acabamos a falar em valores e na relatividade das somas. O que são mil euros no Brasil, ou na Europa. O que são 5 mil euros no Brasil e na Europa. O que compram de facto 5 mil euros no Brasil. A relatividade do valor do dinheiro. Remata com um - vocês europeus não conseguem perceber.

Fecho a boca. Oiço só. Não deixo que os lugares comuns e as palavras óbvias perturbem a enxurrada de palavras que saem, misturadas com lágrimas, misturadas com gestos de menina perdida e um constante olhar vazio. Não faço mais perguntas quando me diz que quando não se tem nada a perder, perder tudo é um mal menor. Fí-lo por necessidade, diz. Para mim 5 mil euros é muito, mas muito dinheiro e mudava muita coisa na minha vida. Poderia ir viver para outra cidade com os meus filhos, poderia fugir desta vida de miséria e de maus tratos, poderia ter uma casa, poderia conseguir ter um trabalho, poderia ter uma loja minha.

Poderia de facto. Mas nesta lotaria da vida, agora só pode mesmo é ser presa. E eu juro que pelo caminho disto tudo senti uma enorme pena. 
...

Todos temos um valor, todos somos comprados, corrompidos por uma soma. Todos sem excepção. Qual seria para cada um de nós o valor do risco ? 1 milhão? Quinhentos mil euros? Ou tão só o valor do medo?

sábado, 14 de novembro de 2015

Serás sempre Paris...


Jean-Philippe Charbonnier 

Podes rezar ao teu Deus que eu rezo ao meu, 
Talvez o meu Deus seja o teu, 
Porque só há um Deus no nosso céu, 
Chama-se A.M.O.R.
...

O meu Deus não usa balas nem se explode na multidão, 
Que o teu Deus não use ferros nem se esconda na Santa Inquisição,
Porque cada um tem um Deus na sua mão, 
E o nosso chama-se 
A.M.O.R.
E alguém pergunta ao longe e eu digo:
A.M.OR.

Podes pedir ao meu Deus que eu peço ao teu, 

Que nos dê a Paz e a Luz e a Vida que nenhum ódio venceu, 
Porque sabes onde estiver esse Deus estarás tu, estarei eu, 
É um Deus que dá pelo nome 
A.M.O.R.

E tu perguntas como se chama esse Deus e eu digo:
A.M.O.R.

Pedro Abrunhosa - A.M.O.R.


Minha doce Paris, cidade dos amantes e dos encantos. Cidade luz. Cidade Cultura. Paris dos museus, e do L'Opera. Cidade onde a qualquer dia e a qualquer hora desde que haja um raio de sol, as cadeiras de ferro do Jardin des Tuileries se enchem de gente a saborear vida. Paris cidade do Sena e dos bateaux-mouche, do Quartier Latin e das muitas livrarias, e do Sacré-Coeur e Montmartre com as ruas estreitas de pedra, a subida a pique rumo aos céus e os pintores em cada esquina. E o pão quente em baguette embrulhado em papel, e as casas de chá e os croissants estaladiços. Cidade multicultural, multirracial. Cidade tolerante.

Cidade Amor.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Altos voos, grandes clichês...


Bansky

Ontem falava com um amigo sobre homens, tipos de homens. Homens previsíveis. Homens norma. Homem cliché. E acabámos a falar já nem sei como do homem certo para mim. Dizia-me ele que o homem certo para mim seria sempre o que tivesse disponibilidade para me acompanhar nas minhas aventuras, que tivesse tanta curiosidade do mundo e de viver como eu, ou mais ainda, o que fosse capaz de me acompanhar num esfola quando eu dissesse só mata, o que quando eu imaginasse ir, completasse a frase com um entusiasmado vamos. Alguém que gostasse do que eu gosto e o quisesse usufruir comigo, na minha plena companhia, e que fosse o tipo de homem para quem viver fosse todos os dias uma aventura.  É esse o teu amor disse ele. O teu grande amor. Sabes que encontrar alguém que goste de nós e de quem nós gostemos já é difícil, mas encontrar alguém que goste de nós e da mesma forma de vida que nós gostamos então é muito mais difícil, é assim como sair o Totoloto e o Joker na mesma aposta, mas tu és uma lutadora e uma sonhadora não desistas que vais encontrar. Quem não desiste dos sonhos consegue. E sabes uma coisa? Admiro-te pelos teus sonhos, pela tua enorme capacidade de sonhar.

Sonhar só não chega. Ajuda, confesso que ajuda. Permite ver só o que queremos, ausentarmo-nos do que não queremos à velocidade da luz para um lugar melhor, mas tem desvantagens, o lugar que imaginamos é sempre muito melhor que a realidade e há que constantemente fazer um esforço tremendo para mantermos os pés assentes na terra e arrumarmos as asas que servem para voar - porque a vida tem que ser vivida a dois pés e não a duas asas sob o risco de nos estatelarmos no chão e catrafodermo-nos. Razão e coração não seguem de mãos dadas, nem sequer lado a lado, há sempre algo de irracional naquilo que nos move o coração e comanda as emoções. Realinho o gps para a forma terrena. Deixo os altos voos para mais tarde. Quem sabe um dia.

domingo, 1 de novembro de 2015

Não me chamo Alice...[mas parece]




E agora Alice?
Qual o caminho certo para a tua wonderland? Aquele de à dois passos atrás? Volto para trás? O que deixaste passar porque achaste escuro? O com mais luz? O mais curto? O mais longo? O que só desce? O que só sobe? Aquele que não te pareceu ser sequer um caminho?
Não há caminho?

Qual caminho? (wonderland há, tem que haver)

sábado, 17 de outubro de 2015

Felicidade vende-se a preço de saldo...

Quando um dia em pequena perguntei à mãe, cheia de curiosidade das coisas dos crescidos o que era isso do amor, ela de pano da loiça na mão olhou para as três irmãs que a ajudavam a arrumar a cozinha, e respondeu-me a rir e com o ar mais sarcástico do mundo que amor era uma pomada para limpar metais da marca Coração.


Nunca percebi muito bem o que ela queria dizer com aquilo já que estava casada e ainda continua e pelos vistos satisfeita com a vida que tem. Foi há muito tempo, os tempos eram outros e muita coisa mudou segundo parece.

Ontem no trabalho falava-se animadamente de amor e quando no meio de uma discussão acalorada como deve ser uma discussão sobre o amor, alguém fez a mesma pergunta óbvia que eu um dia fiz, o que é isso do amor - uma das colegas presentes disse que não havia nada que saber, o amor era um pão! Podia ter dito que era um travesseiro de Sintra, uma torta de Azeitão, quiçá um fofo de Belas, mas não, disse convictamente que era um pão. E depois justificou. Começa quente, fofo, a cheirar a frescura e vontade de comer e acaba rijo, intragável, a cheirar a bolor e a exigir esforço para mastigar. 

A colega em questão é casada, mãe de duas meninas e feliz segundo parece. Tenho dificuldade em entender quem come pão bolorento, bafiento, daquele que custa a engolir e faz mal aos dentes. Mas isso sou eu claro. Sempre tive como única escolha na vida que o pão se for como o amor quer-se pelo enorme prazer de ser saboreado. 

Passaram 30 anos sobre a minha pergunta. Continuo sem perceber.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sabem porque o dia de hoje é presente?



Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital. Em circunstâncias muito diferentes. Um deles, podia sentar-se na sua cama durante uma hora, todas as tardes, para que pudesse aliviar a pressão no peito os fluidos circulassem nos seus pulmões. A sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha de ficar sempre deitado de costas sem se poder mexer. Os homens conversavam horas a fio. Falavam das suas mulheres e famílias, das suas casas, dos seus empregos, onde tinham passado as férias. De alguns sonhos por realizar. E todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, ele passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto, todas as coisas que ele conseguia ver do lado de fora da janela.

O homem da cama do lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a actividade e cor do mundo do lado de fora da janela. A janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes chapinhavam na água enquanto as crianças brincavam com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores do arco-íris. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem, e uma ténue vista da silhueta da cidade podia ser vista no horizonte. O rio ao fundo, as pontes sobre o rio como um risco na paisagem. Nuvens que pareciam algodão doce no céu. Enquanto o homem da cama perto da janela descrevia isto tudo com extraordinário pormenor, o homem no outro lado do quarto fechava os seus olhos e imaginava a pitoresca cena. Um dia, o homem perto da janela descreveu um desfile que ia a passar. Embora o outro homem não conseguisse ouvir a banda, ele conseguia vê-la e ouvi-la na sua mente, enquanto o outro senhor a retractava através de palavras bastante descritivas. Dias e semanas passaram.

Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto para lhe dar a medicação e começar a higiene e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela, que tinha falecido calmamente enquanto dormia. Ficou muito triste e mais uma vez sentiu-se impotente contra o rumo que a vida dá aos acontecimentos. Chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo. Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira disse logo que sim e fez a troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a enfermeira deixou o quarto. Lentamente, e cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiado no cotovelo, para contemplar o mundo lá fora. Fez um grande esforço e lentamente olhou para o lado de fora da janela... que dava, afinal, para um pátio sombrio rodeado de paredes cheias de salitre e humidade sem vista alguma. O homem perguntou à enfermeira o que teria feito com que o seu falecido companheiro de quarto, lhe tivesse descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela. A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver o pátio. "Talvez ele quisesse apenas dar-lhe coragem...".

Moral da História: Há uma felicidade tremenda em fazer os outros felizes, apesar dos nossos próprios problemas. A dor partilhada é metade da tristeza, mas a felicidade, quando partilhada, é dobrada. "O dia de hoje é uma oferta da vida para cada usar como quiser e lhe der na real gana, por isso é que lhe chamam o presente."

Quanto a mim... gosto muito de relembrar esta história quando ando menos bem. A vida é para ser vivida todos os dias.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Conversas perdidas...



- Andas bem ? Como está a ser o teu dia?
- Nem por isso. A andar. A andar para a frente que a vida faz-se a andar. Não sou de lamentos, é marchar como os soldados.
- É isso. Para a frente... resta saber onde é a frente!
-  preciso de forças e de paciência. O tempo faz o resto.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Este circo é uma comédia...






"Não te esforces tanto, as melhores coisas sucedem quando menos esperas. 
E tudo o que sucede, sucede por uma razão."

Gabriel García Marquez



Acrobata do amor, trapezista de sonhos, contorcionista no prazer, malabarista de economias, domadora de leões, amansadora de feras, feiticeira de improváveis, devoradora de fogo e de homens. Aqui há animais amestrados, palhaços, alguns ricos outros pobres, mas todos se esforçam por fazer acontecer música e arrancar gargalhadas à plateia. Muitos mágicos, esses os verdadeiros senhores do espectáculo capazes de tirar coelhos da cartola, moedas de trás das orelhas, transformar lenços em pombas vivas e em qualquer segundo acrescentar magia a um universo de impossíveis.  São os meu preferidos. Transportam-me para todo um mundo novo, totalmente desconhecido e arrebatador. Com muito pouco fazem muito. Com uma mão cheia de nada, quase tudo. Basta cerrar os olhos e deixar acontecer. E voar nos sonhos da magia. 

Nuns dias, índios de olhos vendados atiram setas ou punhais que quase acertam na rapariga tímida e desprotegida mas destemida, neste jogo que era para ser a sério mas é a fingir. Ou será o contrário? Nunca sei. Noutros, dias, cowboys de barba de dois dias sacam das pistolas e entram a matar. Raspam orelhas, cortam alças de soutiens, desabotoam botões de vestidos que acabam por cair no chão perante uma assistência em silêncio, boquiaberta, perdida entre o imaginário e o impossível. É preciso esperar. Esperar para ver. A heroína, uma verdadeira artista de circo submete-se ao espectáculo todos os dias e sobrevive. Sobrevive sempre. Não lamenta as nódoas negras, as mazelas que a vida circense lhe vai deixando no corpo. Sai do palco de cabeça levantada e a sorrir, embrulhada no manto de purpurinas brilhantes porque sabe que amanhã é outro dia e haverá outro espectáculo. Agradece os aplausos e corre veloz dali. Feliz, segura do seu destino, da vida que escolheu, da sua coragem e do dever de missão cumprida. Anões, aberrações, elefantes que saltam à corda, macacos de vestido de alças e saltos altos, porcos a andar de bicicleta, cartomantes, videntes, bruxas de vassoura e leitoras de sina são parte do espectáculo. Ai a triste sina.


A vida é um circo.
Bem vindos ao circo.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A brincar também se cuida...

Abby, de quatro anos sofre de leucemia. O seu maior sonho era casar com o seu enfermeiro preferido - Matt. O hospital e toda a equipa que a acompanha resolveram tornar-lhe o sonho possível. Nesta cerimónia de faz de conta não faltaram o vestido branco, o véu, o bouquet de flores, a marcha nupcial, o bolo de casamento, e até um carrinho de brincar cor de rosa com um lugar apenas para a noiva foi decorado com um letreiro casados de fresco. E algumas das fotos são estas.





"This is why we go into nursing"

 - Matt -

É mesmo!

E às vezes conseguem-se verdadeiros milagres com tão pouco. Basta querer para fazer acontecer.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Posso pedir uma coisinha? Só uma, é rápido e não dói...






No mesmo dia...

um miúdo de 21 anos, ciclista, que ia na sua vidinha sem fazer mal a ninguém, atropelado, entrou-me no trauma, fracturas múltiplas, as cristas ilíacas enfiadas pela cavidade torácica numa coisa atroz que eu em tantos anos a virar frangos nunca tinha visto, cavidade abdominal desfeita, rotura de vários órgãos internos e de uma víscera oca. Desespero total e impotência geral perante uma situação para a qual todos nós antevimos o fim. Ficou o cansaço, a dor. De todos nós, da namorada e dos pais. 

Logo a seguir... 

ainda não recompostos de uma paragem cardio respiratória e de uma ONR expressa alto e bom som pelo coordenador da equipa médica no Trauma do ciclista, entrou uma vitima baleada numa perseguição policial. A vitima era um traficante, mafioso, líder de um grupo já conhecido e referenciado, com cadastro por pedofilia, pena de prisão cumprida por comportamentos abusivos com crianças e procurado há vários meses pelas autoridades por um crime de sangue com rapto e tortura relacionado com tráfico. Rodeado de aparato policial e medidas de segurança. Protocolo especial de segurança activado. 

E depois de duas paragens cardio respiratórias, e de duas reanimações consecutivas com direito a atropinas intracardiacas, desfibrilhação cardíaca, reanimação cardio pulmonar, 6 unidades de sangue em curso, 4 unidades de plasma, e três Lactatos de Ringer à velocidade da luz, a coisa reverteu, e o mânfio safou-se, e vai ficar por ali para as curvas, para torturar, abusar de crianças, raptar gente, vender droga e claro continuar a fugir à policia assim que tiver oportunidade ou viver à conta dos contribuintes numa qualquer prisão deste país até que consiga fugir.

Gostava de pedir a Deus que não estivesse distraído, e que fosse justo com as suas escolhas, e já agora que não faltasse às aulas de moral e humanidade, e que não assobiasse para o lado quando for a hora de pesar comportamentos porque há coisas que por muito que me esforce (e eu juro que me esforço), eu por muitos anos que viva e por muito que veja, não entendo. E hoje era mesmo só isto.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A calcular destino...

Monte Rodel. ( foto tirada por mim) 



Na vida somos aquilo que deixamos que a vida faça connosco. Se cairmos ora bem, temos bom remédio... é levantarmo-nos, se sairmos da rota é redireccionar, se perdermos o norte é calcular destino... mas a palavra de ordem é sobreviver, prosseguir, e esquecer o que não temos para apostar em ser feliz com o que temos.


A vida é curta, demasiado curta, e toda a gente sabe que a morte e a doença moram ali na porta ao lado, por isso por aqui quebra-se regras, pisa-se o risco, arrisca-se demais, ama-se intensamente e de verdade, sente-se prazer sem pudores nem falsos moralismos, vive-se a vida, perdoa-se rapidamente, não se persiste na raiva, luta-se com unhas e dentes por aquilo que importa, dá-se valor às pequenas coisas, não se insiste no desgosto, não se magoa deliberadamente, tenta-se não trabalhar demais, aproveita-se tudo o que pode valer a pena, aceita-se a amizade desinteressada, não se exige nada, não se espera nada e não se valoriza a despeita. 

Sobretudo ri-se a bandeiras despegadas, e faz-se por nunca parar de sorrir por mais estranho que seja o motivo, mesmo os mais idiotas e desprovidos de sentido.
Pelo caminho e enquanto o meu gps de vida calcula o destino, sigo estrada fora pelo prazer em viver e em continuar a viagem...




sábado, 11 de abril de 2015

Ao meu anónimo fofinho que nunca me abandona, até nos piores momentos, ele está sempre lá e nunca me falha...




Se fosse possível explicar-te tudo, não precisarias de perceber nada.

Agostinho da Silva.




Afinal percebi que com muito menos trabalho também é possível fazer um blog. E o meu problema é mesmo a falta de tempo. E claro, às vezes a falta de ideias. Mas hoje passou por aqui um anónimo fofinho que me deixou uma excelente ideia e assim do nada fez-me ver isto dos blogues como a realidade do que na verdade são. Apenas blogues. Porcaria de blogues onde dizemos o que nos vai na gana, às vezes em frases com sentido, outras só mesmo pelo prazer de desabafar, provocar, agitar águas, ou falar só por falar porque é isso mesmo que nos apetece.

E por aqui não se cumpre ordens só se faz mesmo o que a mim me apetece.
Claro que prometo caro anónimo.:)

sexta-feira, 27 de março de 2015

A propósito do co-piloto que resolveu brincar de Kamikaze com um avião com 149 passageiros a bordo...




Não me incomoda nada gente que se mata ou tenta matar-se ou chama só a atenção sem fazer nem a primeira nem concretizar a segunda. A morte devia ser uma escolha de direito como é a vida. Cada um deve fazer com a sua vida ou com a ausência dela se assim entender o que muito bem lhe apetecer. Agora o que me irrita mesmo muito, é que quem lhe apetecia muito viver, por exemplo os membros da tripulação que estavam tranquilamente e normalmente na rotina do seu trabalho, os 16 adolescentes que regressavam ao seu país de origem depois de um intercâmbio cultural, os 49 espanhóis que aproveitavam as férias para visitar a Alemanha, e os outros passageiros todos de outras diferentes nacionalidades que por lá iam na calma das suas vidas, felizes e contentes por estarem vivos sem chatearem ninguém tenham morrido também. E não queriam. Não lhes dava jeito nenhum. Não escolheram isso. E ouvi dizer que até tinham outros planos.

Consigo entender quem se suicida. Não entendendo as razões, mas esforço-me sempre por entender " a razão". Respeito quem o faz. Lido todos os dias com isso e nunca me passou pela cabeça questionar a opção de cada um. As escolhas são como as vaginas, cada um tem a sua. Pode ser a escolha errada para mim, mas foi a válida para aquela pessoa. Agora o que eu não entendo mesmo e por muito que me esforce é o egoísmo tremendo (se a opção do suicídio se confirmar de facto) de alguém que resolve suicidar-se e pelo caminho arrastar por simpatia 149 pessoas para a sua morte. É só que isto irrita-me mesmo imenso, e se fosse comigo era capaz de mesmo morta, mortinha da silva, sem um braço ou uma perna, levantar-me e arrancar-lhe os olhinhos com a ponta das unhas lentamente... até porque no céu dizem que o tempo não conta e tempo era coisa que não me faltaria.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sensações...



A vida é para nós o que concebemos dela. 
Para o rústico cujo campo lhe é tudo, 
esse campo é um império. 
Para o César cujo um império ainda lhe é pouco, 
esse império é um campo. 
O pobre possui um império, o grande possui um campo. 
Na verdade não possuímos mais do que as nossas próprias sensações, 
nelas, pois, que não no que elas vêem, 
temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

Fernando Pessoa