domingo, 20 de março de 2016

Oásis de banho quente, e uma noite de sono numa cama lavada...




São 4h e 30 da manhã, cansada, meio adormecida, sonolenta, embalada pela luminosidade  de uma tv ligada sem som, pelo assoprar do Pedrinho, e pelos ais profundos da Picolé que leva a vida a suspirar, deixo-me ir, devagar, sem nenhuma pressa, envolvida no meu livro "Se isto é um Homem", recordando lugares que visitei há semanas, cabeceando, e deixando aqui e ali que as pálpebras se fechem num cansaço acumulado que não tem fim, que já não domino e que deixo que me domine.

De repente o besouro, o som habitual, irritante, já nosso conhecido, que nos faz saltar da letargia, e acelerar o batimento cardíaco. O inconfundível aviso sonoro da sala de emergência. Dou um salto, procuro com os pézinhos em meias, em bicos dos pés, as socas arrumadas a um canto, e corro o mais que posso. Eu e todos. Ninguém fica estático, ninguém se esquece do seu lugar e da sua função e corremos apressados para salvar uma vida.

Paciente do sexo masculino, 37 anos, nacionalidade estrangeira, emigrante de leste, ferimento profundo no tórax por arma branca. Entrado em paragem cárdio respiratória, ventilação assistida, entubação oro-traqueal, e manipulação de ambu. O cenário é confuso. Muita gente, muito sangue. Os movimentos respiratórios forçados provocam sangramento em jacto, a equipa de anestesia e a equipa de cirurgia intervêm, uma ocupa-se dos sinais vitais do doente que não existem, a outra tenta estancar a hemorragia, pinçar a artéria e colocar uma drenagem torácica para expandir o pulmão e permitir a respiração assistida.

Não conseguimos. Após 4 unidades de sangue em curso, um esforço sobre humano para salvar uma vida, e 25 minutos de doente em paragem... o chefe de equipa grita: Fim!! Não se faz mais nada, não há mais hipótese, declaro o óbito. Cansada, suada, o corpo peganhento, as mãos com as articulações doridas, as pernas a fraquejarem, paro 5 segundos e sento-me a um canto da sala num banco de metal. 

A nossa volta o mesmo caos de sempre. O lixo atirado pelo chão, luvas, papeis, embalagens rasgadas, plásticos, sangue, pensos compressivos, ligaduras, gaze. Olho para baixo e vejo nas socas pingos de sangue, presa à sola  um enorme coagulo castanho de sangue oxidado, nas meias de riscas sobressaem redondas bolas vermelhas, nas calças da farda mais sangue que escorre pela perna direita. Sinto-me tão desconfortável, preciso urgentemente de um banho, de lavar o cheiro a hospital, de tirar de mim o cheiro ferroso do sangue. 

Por muitos anos de trabalho que tenha nunca me vou conseguir habituar a isto. Nunca. Sinto-me tão suja. Quero um banho e uma cama.

14 comentários:

  1. Eu percebo que por mais que o tempo passe e por mais casos que aconteçam tu não te habitues a isso. São vidas que se perdem por motivos estúpidos :/

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    1. PM: Nunca me vou conseguir habituar à dor, ao sofrimento e à morte. Os anos não me trouxeram insensibilidade nem frieza, se há coisa a que cada dia dou mais valor é à ausência de doença.

      Beijoooo

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  2. Não sendo enfermeiro reconheço que não é fácil cuidar do doente, tratar, transmitir-lhe confiança, sorrir, quando muitas vezes o coração quer chorar.
    Enfermagem é, sem dúvida, uma profissão nobre que a maioria das vezes não é reconhecida pelas entidades superiores. Por isso está como está!

    Beijinho, Ana!

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    1. Jorge: Ser enfermeiro é cuidar... e mentir. Enganar sobretudo. Dar esperança quando ela não existe, fazer acreditar no impossível... ajudar a voltar a sonhar.

      Beijinhoooo Jorge

      Obrg:))

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  3. Cada vez mais gosto deste blog... não só por aquilo que escreves e como escreves, parece que ao ler-te entro na cena que contas rapariga!! e sim também me apeteceu ir logo para o banho!

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    1. Petra: O cheiro.. é impossível conseguir transmitir o cheiro do sangue - é inconfundível- ou o cheiro da carne queimada num grande queimado. são cheiros que nos marcam para sempre acredita! Só a imagem visual é pouco, faltam todos os outros sentido... e tu sabes muito bem ( melhor que ninguém ) do que falo.

      Beijinhoooo:)

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  4. Se eu já me passo da marmita ao ver sangue, nem quero imaginar esse cenário por ti descrito.

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    1. Jedi Master Atomic: Desmaio quando vejo o meu... Vê lá como sou!

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  5. Admiro profundamente a tua profissão. Sei que não conseguiria tê-la, sempre escondi a minha cobardia atrás dos livros.

    Um abraço apertado

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    1. Carla: E eu escondo a minha nas inúmeras mentiras que digo para esconder a verdade a quem sofre. Vai correr bem, vais ficar bom, vai passar vais ver, daqui a nada já estás a correr e a andar de mota por aí, não vais perder a perna temos cirurgiões muito bons, há milagres sabias?... tudo tretas... bem contadas, bem ensaiadas vezes sem conta, ditas com a maior sensibilidade e ternura para que sejam reais. E acreditam!

      Abraço enorme

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  6. Tenho profunda admiração pela tua profissão, por ser algo tão digno e que eu jamais seria capaz de exercer.
    Beijinhos :)))

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    1. Quarentona: Todos somos capazes de tudo. Basta querermos, basta ter respeito pela vida e pelos outros... essa é a base, o resto vêm com técnica e aprende-se nas aulas, ou com os anos de serviço.

      Beijo****

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  7. AC
    voltaste e eu gostei do teu regresso à crónica com sangue.
    esta Varsovia de sentimentos é outra loiça
    gosto de viajar contigo mas é nestes textos que te reconheço
    um abraço do
    joaquim

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    1. Joaquim: Sou uma contadora de histórias...

      Beijo*

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Diz aí nada ou coisa nenhuma.