terça-feira, 20 de dezembro de 2011

There is always hope....I hope so!

                                                                           


Mais uma noite muito complicada...

Doente de 46 anos,  sexo masculino, entrado na sala de emergência, por tentativa de suicídio por enforcamento, marcas visíveis de estrangulamento no pescoço, edema extenso das partes moles, suspeita de lesão cervical com compromisso vertebro-medular, provável anóxia cerebral, score 8...parametros vitais reduzidos, 74 de oximetria.
Doente não responde a ordens simples, midriase, coma...

Após a  intervenção da equipa de anestesia e de cirurgia geral, e depois de várias tentativas de entubação oro traqueal pela anestesia que se revelaram infrutíferas bipámos a equipa de maxilo-facial que iniciou manobras para nova entubação...doente com lesões graves na traqueia o que impediu a passagem do tubo...Depois de muitas tentativas feitas com a oxigenação do sangue sempre a baixar e os valores de oximetria muito inferiores ao desejável, a cirurgia optou pela traqueostomia...perfuração do pescoço para introdução de uma canula que vai permitir ventilar mecanicamente o doente com o apoio de um ventilador na forma de respiração artificial.

Cá fora estavam a mulher e dois filhos do paciente que tínhamos na sala e que apesar de todos os esforços  desenvolvidos estava, clinicamente morto. Saí da sala por momentos para ir buscar material à pequena cirurgia, e cruzei-me com a senhora que lavada em lágrimas, me puxou um braço e disse:
Diga-me, ele salva-se? Já dei por ele tarde demais...estava roxo.
Parei, e disse: Vamos ver, mas está muito complicado, e fugi dali rápido...ainda a ouvi ao longe dizer...
Mas porquê isto.... havia esperança,  tudo se ia resolver....

Não indaguei os problemas que levaram o senhor a cometer tamanha loucura, não julgo ninguém, e reconheço que por vezes a razão prega-nos partidas, mas tenho por norma que todos os problemas têm solução, e os que não têm solução à partida já estão resolvidos...
E esta não é de certeza a solução.

Uma coisa é certa, cada vez mais nós profissionais de saúde somos confrontados com verdadeiras tentativas de suicídio, de quem quer muito morrer e sabe a maneira certa de fazê-lo.
Nesta altura do ano onde a solidão bate mais forte, a miséria se exponencia, e a falta de dinheiro, dos amigos ou da família se sentem com mais intensidade, acontecem mais tentativas de suicídio, em todos os turnos as há, a grande maioria são apenas ameaças, tentativas, mas outras vezes tal como hoje....a tentativa resulta em sucesso.

Para mim, ficou mais uma vez a verdade da realidade escondida, por detrás da alegria do Natal....
Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay!!!!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Diálogos parvos...de meninos espertos.

                                                                             
                                                                             

                                                                                     
Adoro bêbados...E gosto ainda mais de gajos bêbados armados em espertos às 5 da manhã.
Uiiiiiii...........

Doente etilizado, sinais evidentes de agressão física, escoriações várias, ferida incisa no sobrolho direito, com indicação para sutura na pequena cirurgia, possível fractura dos ossos próprios do nariz, pequeno hematoma no olho direito, e sangramento do lábio...
Prescrição terapêutica de analgésico intra-muscular para controlo da dor, e anatoxina.

eu: Vai deitar naquela marquesa de barriga para baixo, tira a camisa e baixa as calças e as boxers se faz favor.(a intra muscular é no quadrante superior externo da nádega, a anatoxina no bicípede do braço)
menino esperto: Então isso é assim? Ao primeiro encontro é logo mandar deitar e tirar as calças, e não há conversa?
eu: Aqui trabalha-se, vamos lá a baixar as calças e menos conversa...

Viro-me para preparar os injectáveis, e quando me volto menino esperto deitado de barriga para cima, boxers e calças puxadas para baixo...
eu: Mau, mas você é surdo? Eu disse de barriga para baixo, vire-se...
menino esperto: Tu és linda, eu mostro tudo...Anda cá que eu não te aleijo!
eu: Ouve lá pá, (eu já no modo tu cá tu lá badamerda) são 5 da manhã, e eu a esta hora já não me apetece gramar gente parva, vira-te de barriga para baixo já, e deixa-te de coisas.
Menos conversa e mais acção.

Menino esperto vira-se de barriga para baixo, enquanto diz: olha não queres...tu é que perdes! e eu tungas, afinfo-lhe com garra, enquanto aviso: Vai doer!
menino esperto : Fodaaaa-se. Bruxa do car@lho!
eu: Ainda bem que já estás melhor...Nada como a medicação certa. O álcool que tens nas veias e o sangue que escorre do sobrolho toldavam-te a visão, mas agora ó ó, já vês muito melhor...

Que maravilha... continuas bêbado e calhau com dois olhos, mas vês na perfeição!
Para a próxima que tal, águinha da épalis...digo eu.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ah e tal...o Pedrinho passou-se.




O meu colega Pedrinho, é giro, muito giro mesmo, e sabe que é. Tem uma cara bonita, malandra, ar de menino, onde moram uns olhos azuis. Tem o cabelo castanho claro para o comprido, sempre em desalinho, com uma franja que ele teima em tirar  dos olhos em gestos sensuais e estudados.

Desta vez passou-se, tanta banana enfardada para aumentar a massa muscular, tanto batido agitado e engolido à pressa entre duas suturas, e uma prescrição terapêutica deram-lhe cabo dos dois neurónios funcionantes que sustentavam mais de 1,80 de altura, e 75 kg de peso.
Pirou, o gajo passou-se mesmo...

Ontem quando chegou, a primeira coisa que fez foi mostrar a tatuagem que fez na barriga, de lado, um pouco abaixo do umbigo, quase na virilha e que representa...tchiiii, um dinossauro, um dragão, um demónio, um monstro, sei lá um bicho horrendo de pescoço comprido, alado, e com uma cauda longa que termina em seta. Morri de susto...Que raio de coisa mais feia, medonha, assustadora...Será que aquilo é para aterrorizar as miúdas? Só pode...

Mas esta não foi a única inovação do Pedrinho...a semana passada, já me tinha surpreendido quando apareceu no serviço, a parecer o Mr. Músculo... Fiquei a olhar para ele aparvalhada, porque mandou apertar na costureira as meias mangas das fardas, e de tão justas que ficaram sobre os bíceps, estes saltam e sobressaem, fazendo-o parecer um idiota como o Mr Bean, mas assim com mais chicha...

Ah, e tal...tem 26 anos, é alto, giro que se farta, bom rapaz, bom físico...mas e cérebro? Também convém ter um, é que de vez em quando mesmo num gajo giro, faz falta...Morreram os dois neurónios, o Tico e o Teco companheiros inseparáveis, que restavam ao Pedrinho....Salvé!

Corpo musculado, peito depilado, tatuagem na virilha, e palha de enxergão no cérebro.
Fujam....

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Coisas singulares que me acontecem...

                                                                         
                                                                       
Há algum tempo recebemos na urgência um paciente do sexo masculino, 26 anos transferido de outro hospital para o da área de residência com o diagnóstico à entrada de hepatite fulminante.
Um diagnóstico deste tipo, significa apenas uma coisa....é necessário encontrar um dador de fígado compatível para transplante imediato tudo no mais curto espaço de tempo possível senão o doente entra em falência orgânica e morre.

Doente em suporte avançado de vida, coma induzido, controle de transaminases, testes histológicos de compatibilidade e inicia-se a busca por um possível dador compatível em qualquer parte do país.
Telefonemas, contactos com o Centro de colheita de órgãos, e depois de algum tempo surge a hipótese de haver um fígado compatível nos HUC, em Coimbra.

A transferência do doente foi feita de helicóptero, num aparelho da Força Aérea Portuguesa, disponibilizado para o efeito.
Acompanhei o doente, conjuntamente com o médico da unidade, o anestesista de urgência, e ainda  3 elementos militares da Força Aérea que compunham a tripulação.
Foi a minha estreia nestas andanças, a primeira e única vez que andei de helicóptero. Gostei da viagem, adorei a aventura, não senti medo.
Espreitei das alturas os edificíos, os telhados, o rio...

À chegada tínhamos a equipa de transplantes à nossa espera que recebeu e encaminhou de imediato o doente para a respectiva unidade de cirurgia.
O helicóptero partiu, no regresso apanhámos boleia de uma ambulância de uma terriola perto de Peniche, demorámos três horas numa farronca velha, sem suspensões, e que parecia que ia largar as rodas na primeira curva.

Quanto ao rapaz, sobreviveu... e já o voltei a ver, apareceu na unidade acompanhado da mulher para agradecer a toda a equipa médica que o salvou..
Não o reconheci.
Pareceu-me diferente, estranhei vê-lo mais gordo, e sem o tom amarelado característico da falência hepática
A mim, deu-me dois beijinhos simpáticos e num sorriso disse-me obrigada, obrigada por tudo.

Não lhe disse o que me passou pela cabeça, guardei-o para mim......pensei-o apenas.

Obrigada eu, do fundo do meu coração.... pela tremenda aventura de helicóptero, pela sensação única de ver a cidade do alto mas não demasiado alto, pela experiência incrivel de voar com uma equipa de militares, ou só pela magia de tudo acabar bem.... e porque coisas destas só acontecem uma vez na vida.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Porque há dias assim...

                                                                           

Por causa da chuva e do vento, o caos completo no trânsito. Dias de temporal correspondem a muitos acidentes de viação, o que  para mim é sinónimo de trabalho directo acrescido.
A sala de emergência nunca parou, vários doentes entrados, e várias transferências recebidas de outros hospitais ...

Hoje o meu mundo girou à volta dos olhos azuis mais límpidos e brilhantes que vi...Recebemos um rapaz 26 anos, atropelado por um autocarro quando se dirigia para a faculdade..
Score 10 à entrada, sonolento, prostrado, com sinal evidentes de dor, fractura cominutiva do fémur direito, possível fractura dos arcos costais à direita, abdómen tenso e distendido, escoriações várias nos membros superiores e na face, deformação com eventual fractura dos ossos próprios do nariz....de resto respondia a ordens simples, falava baixo, mas de forma audível e expressava-se com coerência e sentido.

Falou-me que ia para a faculdade, disse-me o que estava a estudar, em que ano estava, com o olhar indicou-me o telemóvel, e sussurrou-me em voz muito baixa o nome da namorada...procure aí Tânia, ligue-lhe por favor, ela vai ficar à minha espera no sitio do costume, pensa que eu me atrasei...e está a chover, por favor ligue-lhe...não quero que fique à chuva tanto tempo...chove muito, por favor ligue-lhe..ela não vai desistir de esperar por mim...e eu não vou poder ir...ligue-lhe por favor...

Distraí-me alguns minutos, remexi nos bolsos do blusão à procura do telemóvel, desbloqueei-o, olhei o ecrã e procurei a lista de contactos...e de repente oiço o meu colega Pedro gritar: Paragem...chamem a anestesia Paragem...atirei com o telemóvel, corri a bipar a equipa de anestesia, puxámos o carro de emergência, começamos de imediato manobras de reanimação cardio respirátoria, e todo o suporte básico de vida e a equipa de cirurgia adiantou o suporte avançado de vida, começando o processo de entubação oro-traqueal e de reequilíbrio hídrico...

Vinte minutos depois...a linha de ecg, continuava isoeléctrica, os batimentos cardíacos mantinham-se em 12 durante a estimulação cardíaca, para chegarem a zero no momento de pausa...Todos tentávamos salvar o rapaz que tinha os olhos azuis e queria ser engenheiro...Insistimos, mais meia hora com desfibrilhador activo, várias tentativas feitas, diversas atropinas, duas delas intra cardíacas...a linha continuava isoeléctrica, recta, sem apresentar sinais vitais..oxímetria muito baixa, batimentos cardíacos nulos, tensão arterial 4, ausente...

Olhámos uns para os outros... de repente o chefe de equipa disse...Parar, declaro o óbito às 11h 23m...já não adianta, tem lesões cerebrais irreversíveis por anóxia cerebral, e as hipóteses de sobrevivência não existem...fim. Eu suava, a farda colava-se-me às costas, sentia o cabelo molhado junto ao pescoço, as mãos doíam-me e tinha os dedos inchados,  desci do degrau da ressuscitação...pelo chão roupa dele cortada à tesoura, tropecei nuns ténis de marca, olhei-lhe de relance a carteira e o telemóvel, baixei-me e apanhei uma sebenta de engenharia, molhada, suja, encardida de lama, quase ilegível ...dizia qualquer coisa que não percebi bem mas que tinha a ver com resistência de materiais.

Comecei a afastar-me dali.........De relance olhei mais uma vez o rapaz que de olhos abertos me mostrava os olhos azuis mais lindos que vi até hoje...já menos brilhantes, mas igualmente belos.
Hoje o autocarro do rapaz dos olhos azuis passou às 11h e 23m, para qualquer um de nós pode estar na próxima paragem...e passar para nos apanhar mesmo que não queiramos entrar...

Aproveitem a vida, em qualquer cidade, a toda a hora passam autocarros...