Há algum tempo recebemos na urgência um paciente do sexo masculino, 26 anos transferido de outro hospital para o da área de residência com o diagnóstico à entrada de hepatite fulminante.
Um diagnóstico deste tipo, significa apenas uma coisa....é necessário encontrar um dador de fígado compatível para transplante imediato tudo no mais curto espaço de tempo possível senão o doente entra em falência orgânica e morre.
Doente em suporte avançado de vida, coma induzido, controle de transaminases, testes histológicos de compatibilidade e inicia-se a busca por um possível dador compatível em qualquer parte do país.
Telefonemas, contactos com o Centro de colheita de órgãos, e depois de algum tempo surge a hipótese de haver um fígado compatível nos HUC, em Coimbra.
A transferência do doente foi feita de helicóptero, num aparelho da Força Aérea Portuguesa, disponibilizado para o efeito.
Acompanhei o doente, conjuntamente com o médico da unidade, o anestesista de urgência, e ainda 3 elementos militares da Força Aérea que compunham a tripulação.
Foi a minha estreia nestas andanças, a primeira e única vez que andei de helicóptero. Gostei da viagem, adorei a aventura, não senti medo.
Espreitei das alturas os edificíos, os telhados, o rio...
À chegada tínhamos a equipa de transplantes à nossa espera que recebeu e encaminhou de imediato o doente para a respectiva unidade de cirurgia.
O helicóptero partiu, no regresso apanhámos boleia de uma ambulância de uma terriola perto de Peniche, demorámos três horas numa farronca velha, sem suspensões, e que parecia que ia largar as rodas na primeira curva.
Quanto ao rapaz, sobreviveu... e já o voltei a ver, apareceu na unidade acompanhado da mulher para agradecer a toda a equipa médica que o salvou..
Não o reconheci.
Pareceu-me diferente, estranhei vê-lo mais gordo, e sem o tom amarelado característico da falência hepática
A mim, deu-me dois beijinhos simpáticos e num sorriso disse-me obrigada, obrigada por tudo.Não lhe disse o que me passou pela cabeça, guardei-o para mim......pensei-o apenas.
Obrigada eu, do fundo do meu coração.... pela tremenda aventura de helicóptero, pela sensação única de ver a cidade do alto mas não demasiado alto, pela experiência incrivel de voar com uma equipa de militares, ou só pela magia de tudo acabar bem.... e porque coisas destas só acontecem uma vez na vida.




