quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Há quem diga a minha vida dava um filme, a minha dava uma série e das policiais, com muito sangue, medo, e alguns momentos hilariantes.





Doente entrado na sala de emergência. Duas feridas profundas por arma branca. Apresenta hemorragia visível. Abundante. Dificuldade respiratória, polipneico à entrada, agitado, discurso desconexo, verbalmente agressivo. Ouvimos atentamente a informação fornecida pelo médico da Vmer, mobilizamos de imediato o doente para a mesa de grande trauma e começamos por despir o doente.

À primeira tesourada numa camisola de lã ensanguentada deparo-me com um corpo marcado por tatuagens invulgares. Continuo o processo. Mais tatuagens por todo o corpo. A maioria estranhas aos meus olhos. Uma caveira com um punhal espetado no crânio. Um caixão. (que raio?) Uma frase no peito - Esfrega-me e pede um desejo. Sorrio. Não me demoro em considerações. Tenho vontade mas falta-me o tempo. As saturações baixam, a dificuldade respiratória aumenta, o doente expele sangue em jacto. Provável hemotórax é o diagnostico. Há que actuar rapidamente.

O doente enlouquecido desata a ameaçar todos os presentes na sala, se isto correr mal para mim, vai correr muito mal para vocês, sobretudo para si. E olha para o médico da Cirurgia Geral que se desinfecta para iniciar a colocação de uma drenagem torácica. Pára tudo, isso é uma ameaça? (...) já não coloco drenagem nenhuma, e chamem um agente de polícia para tomar conta da ocorrência. E olhem, bipem a Cardiotorácica, eles que lhe coloquem o dreno. Gera-se confusão e muito burburinho, o doente cada vez mais dispneico tenta erguer-se da maca. Estica o braço e dá dois murros na mesa preparada com o material estéril para a colocação da drenagem. Infecta o material. Cospe mais sangue e contamina tudo à volta, profissionais incluídos, com evidente risco para todos.

Adoptamos medidas extremas. Tentamos imobilizar o animal de grande porte como diz o meu colega Duarte. Sucedem-se as frases breves, a maioria de profundo desespero. Já vi gorilas no jardim zoológico mais maneirinhos. Irra que o gajo é pesado. É muito Hidrato de Carbono nesta massa muscular. Será que o gajo só come massa? É muita massa para tanta massa! Seis enfermeiros e dois auxiliares de volta de um homem ferido e fragilizado mas que parece um touro. Preparo uma fórmula de *Midazolam por ordem da anestesista, preparo o injector com uma seringa de *Propofol. Pelo meio levo dois encontrões do meu colega Pedrinho e quase que deixo cair a seringa perfusora. Rezo aos santinhos e apelo à minha grande experiência em andar na corda bamba para conseguir chegar onde preciso.

Finalmente o bicho mau dorme que nem um anjinho. Respiramos de alívio e começamos a tentar salvar-lhe a vida. De repente oiço um aparato de vozes, gente a correr, chamam no rádio seguranças e forças policiais...

Esse caralho estava a foder a minha mulher, se ainda não morreu venho acabar o resto. Fui eu que o fodi e fodo-lhe o resto. Ai cabrão que te fodo.

E houve detenção com direito utilização de gás pimenta e uma cena de índios e cowboys. Eu pirei-me e saí de cena que não sou fã de filmes do Faroeste.

A malta é pobre, mal paga, mas entre cuspidelas, encontrões e nomes lindos em franciú de França (só não me chamam santa), diverte-se à brava e não há telenovelas nem casa dos segredos que batam uma noite animada destas. O perigo é a minha profissão. Ahhhhhhh

domingo, 23 de Novembro de 2014

Homens com sentido de humor...




Nem sempre os piropos são mal intencionados, badalhocos, e vêm de gente bronca e sem educação. Muita tinta já correu sobre este tema e muita gente, até gente importante segundo parece, falou sobre isso. 

De vez em quando a criatividade masculina surpreende-nos.

Ontem à noite...
Eu e a minha amiga Rita ao entrarmos num restaurante onde se encontrava um grupo de homens gajos giros à porta.

- Olha as Torres Gémeas!

Não resisti a olhar para trás. E as duas desatámos a rir...
E por um instante soube-me bem voltar a ter 20 anos.

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

A cor das tuas cuecas...


Gosto delas brancas. Gosto delas pretas ou azuis escuras. Sempre boxers. Podem até combinar na cor com uma t-shirt interior, mas serão sempre lisas, bem justas. Em algodão ou lycra. Gosto de despir as ditas. Devagar ou depressa depende do que me apetece. Posso até não usar as mãos e usar a criatividade. Como eu gosto disso. Gosto de as ver. Com olhos de ver.
Ontem soube de que cor eram. Hoje não. E dei por mim sem conseguir dormir. Com uma dúvida existencial que me tira o sono e leva o sorriso. Não queria admitir, e só muito a custo o reconheço, sinto falta de saber a cor das tuas cuecas. Não sei se será amor, não gosto de dar rótulos às coisas, não sei se será mera curiosidade de mulher, mas saber a cor das tuas cuecas tornou-se uma obrigação na minha vida. Todos os dias.
Amanhã vou saber. Depois também. Mas e hoje?

Mostra-me o teu amor.
De que cor são as tuas cuecas hoje?

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Não posso fingir...



Não posso fingir,
Um gesto que faça, um olhar,
Vês logo se estou a mentir,
Já sabes que volta me dar.
...

Já sabes de mim
mais do que devias saber,
mas olha ainda bem que é assim,
para o caso de um dia eu me perder.
...

Afasta de mim,
Ou faz-me um sinal a tempo,
Há coisas que digo e que faço
E que depois me lamento.
...

Foi sempre meio tremida
A linha da minha vida.
Guarda as chaves do jardim,
Sou suspeito.

Guarda o que resta de mim
Junto ao peito!

Ser Suspeito - Paulo Gonzo.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Coisas fantásticas...


"Uma peça de roupa, duas molas da mesma cor. 
E repetidamente sempre assim. E se chegar ao fim e só tiver duas molas diferentes volto atrás e mudo uma das que só prenda uma peça de roupa e que seja da mesma cor."

Um segredo partilhado baixinho só para mim.

Na vida, tal como nas pequenas coisas, que até podem ser só molas de roupa, temos as nossas coisas, temos direito a sermos nós, mesmo que aos olhos dos outros o que é nosso pareça diferente, ou absurdo.

Gosto dos segredos das pequenas coisas. Sigo imensamente feliz com o que me faz feliz.