sexta-feira, 27 de março de 2015

A propósito do co-piloto que resolveu brincar de Kamikaze com um avião com 149 passageiros a bordo...




Não me incomoda nada gente que se mata ou tenta matar-se ou chama só a atenção sem fazer nem a primeira nem concretizar a segunda. A morte devia ser uma escolha de direito como é a vida. Cada um deve fazer com a sua vida ou com a ausência dela se assim entender o que muito bem lhe apetecer. Agora o que me irrita mesmo muito, é que quem lhe apetecia muito viver, por exemplo os membros da tripulação que estavam tranquilamente e normalmente na rotina do seu trabalho, os 16 adolescentes que regressavam ao seu país de origem depois de um intercâmbio cultural, os 49 espanhóis que aproveitavam as férias para visitar a Alemanha, e os outros passageiros todos de outras diferentes nacionalidades que por lá iam na calma das suas vidas, felizes e contentes por estarem vivos sem chatearem ninguém tenham morrido também. E não queriam. Não lhes dava jeito nenhum. Não escolheram isso. E ouvi dizer que até tinham outros planos.

Consigo entender quem se suicida. Não entendendo as razões, mas esforço-me sempre por entender " a razão". Respeito quem o faz. Lido todos os dias com isso e nunca me passou pela cabeça questionar a opção de cada um. As escolhas são como as vaginas, cada um tem a sua. Pode ser a escolha errada para mim, mas foi a válida para aquela pessoa. Agora o que eu não entendo mesmo e por muito que me esforce é o egoísmo tremendo (se a opção do suicídio se confirmar de facto) de alguém que resolve suicidar-se e pelo caminho arrastar por simpatia 149 pessoas para a sua morte. É só que isto irrita-me mesmo imenso, e se fosse comigo era capaz de mesmo morta, mortinha da silva, sem um braço ou uma perna, levantar-me e arrancar-lhe os olhinhos com a ponta das unhas lentamente... até porque no céu dizem que o tempo não conta e tempo era coisa que não me faltaria.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Pelo buraco da fechadura...



O que se passa na patrulha fica na patrulha. 

Este é o lema da casa. Há muitos anos. Porque me irrita publicitarem-se feitos que se acham heróicos e não o são, porque me incomoda seriamente quem comenta a vida alheia e as opções de vida de cada um achando-se cheio de vaidade e de certezas de quem sabe tudo e afinal não está no convento por isso não sabe o que lá vai dentro, porque não é bonito andar a espreitar a vida de cada um pelo buraco da fechadura, e é certo que quando se espreita só vemos metade da acção e só percebemos parte do contexto. E porque acredito no proverbio que diz cada um sabe de si e o que está lá em cima sabe de todos. 

O que me serve a mim não serve ao meu vizinho do lado. O formato que me faz feliz a mim não resulta com aquela minha prima que quer um vestido branco e um copo de água numa Quinta em Sintra com pelo menos trezentos amigos e uma lua de mel nas Maldivas, e aquele meu sonho por concretizar de um dia aterrar em Nova Iorque, alugar um carro e atravessar vários estados ao longo de várias semanas é para um qualquer Easy Rider de trazer por casa uma ninharia sem importância com direito a comentário de escárnio - o quê, só isso?

Não falo da vida dos outros. Nunca! Cada um saberá o que é melhor para si. Não me interessa para nada que no meu trabalho se comente baixinho em cochichos pelos corredores, que uma das minhas colegas anda com outro colega nosso com metade da idade dela, não acredito que a idade para ele (e por agora) faça diferença no que quer que seja, por isso se eles não se preocupam porque raio cinquenta macacos à volta hão-de estar preocupados com isso? Ou que o Duarte seja amigo colorido da médica X e que combinem uns valentes pinanços em casa dela quando saem os dois de serviço. Se isso me incomoda? Nadinha... Amén! Que lhes faça muito bom proveito à barriga e ao peito, e a mais umas quantas partes. Mas pelo visto há quem se incomode e muito.

E depois há esta coisa muito pequenina e mázinha (tudo em inho sim) de acharmos que quando sabemos alguma coisa não visível, não exposta de alguém, que temos um trunfo, uma arma de arremesso para utilizarmos quando nos der mais jeito e de preferência quando essa pessoa estiver fragilizada. Quanto a mim não sou, nem nunca fui apologista que se deite pázadas de terra em quem está moribundo mas mal enterrado. Não é a vida dos outros que me aflige, é mesmo a minha e o que gostaria de fazer dela e nem sempre consigo. 

Mas há gentinha que não vive assim...

segunda-feira, 23 de março de 2015

Gozo-te [em mim]...



Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha

Que ao corpo grosso
do sol,
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta

e logo o ventre se curva
e adormece

e logo as mãos se fecham
e encaminham

e logo a boca rasga
e entontece

nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce

e uso do gozo
a sua melhor parte 

Maria Teresa Horta - Gozo

Vieste sem esperar numa doce surpresa. Abri-te a porta para entrares. Recebi-te no meu corpo como se esta fosse a tua casa e o meu sexo a cama onde acordas e adormeces todos os dias. Estremeci de desejo muito antes da tua vinda e estremeci de prazer muito depois da tua chegada. Ficou o teu cheiro, o teu sémen e o som da tua vontade gritada, tudo gravado em mim. Cubro-me agora com a lembrança do teu abraço e desespero pela almofada que foi feita dos pêlos do teu peito e do bater do teu coração. Embalaste-me na nossa loucura. Agora muito depois, sem conseguir pensar em mais nada... oiço ainda as palavras  sussurradas que repetidamente me disseste. Uma e outra vez. Anda, vem-te para mim! Dá-mo! E finalmente percebi porque é tão bom voltar para os teus braços.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A estrada à frente...




Os dias foram correndo, primeiro devagar, depois à velocidade da luz. Às semanas juntaram-se aos dias, e os dias transformaram-se em meses que afinal chamam-se anos. Uns quantos que passaram a correr. Tão bons que sorrio a pensar em cada um deles. Olho para trás e vejo desenhados a passe de magia um somatório de vida e de momentos que me fizeram muito feliz. Vivi a vida em círculos sem esperar chegar a lado nenhum entretida apenas com o  prazer da viagem. Gostava de ter forças para continuar o passeio mas sinceramente hoje apetece-me desistir. Faltam-me as forças e a coragem para prosseguir. Sinto-me cansada e mais ainda magoada. Continuo a acreditar que tudo na vida tem principio, meio, e fim, e que só vale a pena insistir quando o que nos faz feliz pesa mais na balança da vida do que "o que nos faz falta e nunca vamos ter". Não me apetece manter-me dentro de uma prisão nem aprisionar quem gosto sob o pretexto que isso talvez me fizesse feliz. Acabo de sentir que a felicidade se dilui nas minhas lágrimas e que tentar evitar com todas as minhas forças que ela me escorregue pelos dedos não é uma mais valia. Não é possível viver para sempre assim. Toda a gente sabe que não se segura a água do oceano e jamais se pede que nos amem.

Não serei ingénua ao ponto de não ter coragem para cessar a dor. Talvez tenha chegado a hora que tanto temi. Anda vida.. anda cá à minha beira e diz-me o que é melhor para mim

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pedaços de um eu que sou eu...


Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Fernando Pessoa
Uma mulher que gosta de viagens sonha muito mais do que as outras. Voa mais alto e mais depressa mas também aterra mais vezes de beiças no chão. Catrafode-se nos sonhos, esfarrapa-se por eles, luta sem desistir e algumas vezes sem também conseguir. Mas está lá, continuadamente. Só compra uma máquina de café expresso depois de muita insistência e muitos comentários parvos dos amigos - mas nesta casa não há máquina de café - porque prefere usar o dinheiro da compra da máquina numa aventura ao pôr do sol na praia do Pego ou comer um bela mariscada numa esplanada em Porto Covo. Não lhe interessa as distancias, não liga a quilómetros, Madrid é já ali, num saltinho, Gibraltar faz-se em meia dúzia de horas de viagem, num abrir e fechar de olhos, Casablanca fica à distância de um dia e uma viagem de Ferry Boat, o tempo é relativo para ela, adora conduzir, nada a cansa e do longe rapidamente faz perto. Veste-se de acordo com a ocasião, quase sempre de ténis confortáveis e meias coloridas e junta-lhes umas calças de ganga ou uns calções, o único adereço imprescindível é uma mochila cheia de coisas que podem fazer-lhe falta, uma garrafa de água, toalhetes de higiene, uma peça de fruta, umas bolachas e obviamente a máquina fotográfica para reter cada dia. Guarda religiosamente recordações de cada local onde já foi feliz. Uma pedra trazida dos Picos da Europa, um aloha da noite temática da festa na discoteca nos Alpes Suíços, uma caixinha de bolachas comprada em Amesterdam e que já há muito perdeu as bolachas. Não tem medo de acampar, ou de ter que passar a noite dentro de um carro, já o fez mais do que uma vez, já viajou de comboio semanas a fio para atravessar a Europa sem ter direito a um duche e guarda consigo o bonito recorde de uma semana inteira sem tomar banho. Gosta de ir aos lugares que não constam dos roteiros turísticos nem dos flyers das agências de viagens, onde só se chega com um guia e quase sempre a pé por trilhos, ou veredas mal assinaladas. Não lhe importa a chuva, o frio, ou o sol quente, viaja porque gosta, porque cada local é único e vale a pena, porque viajar é conhecimento e descoberta e é sempre bom partir à descoberta. Gostava de ver tudo mas sabe que é impossível e nem duas vidas lhe chegavam. Sente todos os dias a falta de tempo. Gosta muito mais de partir do que de ficar, e quando chega, a primeira coisa com que volta a sonhar é em partir. Sabe o nome de todos os lugares maravilhosos onde quer ir, tem um mapa mundi onde coloca pins em todos os locais onde já esteve, faz listas de lugares que não vai desistir de conhecer. E no coração dela ela quer que "ele" a acompanhe, que tenha a coragem suficiente para lhe dar a mão e acompanhá-la sempre que ela fala da Tunísia e da estranheza das praias patrulhadas a cavalo, de Cartago debruçada sobre o azul do mar, ou sobre as Highlands nas terras altas da Escócia pintadas de verde e pedaços de chuva fria atravessadas por rios negros de basalto. Ela quer levar-te a todo o lado onde já foi e onde ainda sonha ir. Faz cenários, estórias de filmes, vai até fazer-te acreditar com muita força que passar a noite num saco cama, abraçados e a respirar para cima um do outro debaixo de um céu imensamente estrelado te faz sentir muito mais feliz que qualquer quarto de hotel de umas míseras cinco estrelas. Não desistas dela, ela vai saber ouvir-te e saber ajudar-te como todos se entreajudam num trekking numa tarde de fim de semana, leva a vida subindo cada obstáculo, de cada vez, um a um, e enfrenta os dias da mesma forma. Não faz grandes planos, não liga a coisas materiais, vive dos sonhos e alimenta-se do prazer que retira das pequenas coisas, do cheiro da terra molhada, dos pingos de chuva que se lhe agarram ao cabelo, dos salpicos da água salgada nos lábios junto à rebentação, dos diferentes sabores das comidas locais. Tão depressa calça as barbatanas e mergulha para ver a Barreira de Corais como aperfeiçoa o esqui e insiste arduamente com o corpo para um dia te poder acompanhar nas descidas alucinantes das pistas pretas. Quem sabe um dia... mas ela não é de desistir. E é uma mulher que adora viagens.