terça-feira, 28 de julho de 2015

A brincar também se cuida...

Abby, de quatro anos sofre de leucemia. O seu maior sonho era casar com o seu enfermeiro preferido - Matt. O hospital e toda a equipa que a acompanha resolveram tornar-lhe o sonho possível. Nesta cerimónia de faz de conta não faltaram o vestido branco, o véu, o bouquet de flores, a marcha nupcial, o bolo de casamento, e até um carrinho de brincar cor de rosa com um lugar apenas para a noiva foi decorado com um letreiro casados de fresco. E algumas das fotos são estas.





"This is why we go into nursing"

 - Matt -

É mesmo!

E às vezes conseguem-se verdadeiros milagres com tão pouco. Basta querer para fazer acontecer.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Kamikaze...




Tenho uma folga de 24 horas. Um dia inteirinho para eu gastar como me apetecer. E o que me apeteceu? O que me bateu assim forte com uma saudade imensa e uma nostalgia profunda? O meu sul. O meu azul a sul.

Vou regressar lá, assim de rajada, em versão kamikaze. Vou mas volto rápido, muito mais rápido do que eu queria. Mas aqui joga-se o tudo ou nada. É pouco, de facto quase nada, mas mesmo o muito pouco é um bocadinho melhor que o nada. E pensei, pensei, pesei prós e contras, analisei tempo de viagem, custos e eteceteras e resolvi ir.

Apostei no quase nada.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A língua inglesa tem destas merdas...





- Ó Miss AC venha cá!
- Miss eu ? De Miss não tenho nada! Está tão enganado...
- Não é miss dessas, é das outras.
- Não percebi. Troque lá isso por miúdos.
- Não é miss dessas de boazona, é miss da outras de ser solteira!
- Eu que pensei que me estava a chamar jeitosa, afinal era mesmo só encalhada. Olha a porra!

Uma sala cheia de médicos, tudo a rir...

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Um alguidar de ameixas amarelas...





Chama-se Carla. Senta-se na cadeira da Triagem a soluçar. Lavada em lágrimas não consegue sequer falar. Espero um bocadinho que soluce tudo, que fungue as vezes que precisa e que no fim se acalme. Carla, diga-me lá o que lhe aconteceu? Explica-me que caiu na rua, num buraco. Tem um dos dentes incisivos partido, sangra abundantemente do lábio, cotovelo esfolado com uma ferida de abrasão mas tirando isso não vejo muito mais.

- Carla diga-me o que lhe dói?
- Não me dói nada. Mas dói-me tudo.

espero... que na minha profissão saber esperar é uma virtude e deixa em aberto uma infinidade de acontecimentos.

e a Carla continua...

-Pela primeira vez em 6 anos ia conseguir assistir ao sarau de natação dos meus filhos, nunca pude ir, estava sempre a trabalhar e nunca consegui que o patrão me deixasse sair mais cedo para eu ir lá vê-los apesar de lhe pedinchar e dizer que até compensava as horas noutro dia. Nunca me deixou. Nunca foi possível. Este ano e por razões que a vida ditou, estou desempregada, e pela primeira vez sabia que entre um grande mal eu ia finalmente ter um pequeno bem, poder assistir à festinha dos miúdos. Estava tão feliz, tão feliz mesmo e agora vejo-me aqui no hospital quase sem conseguir falar, sem parte de um dente, cheia de dores na boca e para aqui cheia de sangue... só porque fui parva e caí. Ai que raiva. Não vou conseguir ir assim, não vou para lá assim cheia de dores e sem um dente.

- Quem disse isso? Pois eu digo-lhe que vai e vai mesmo. Primeiro porque os seus filhos não esperam outra coisa da força enorme que a mãe tem, e em segundo porque eu vou já pedir-lhe os exames radiológicos, só por precaução porque não me parece que tenha nada fracturado, limpar e desinfectar essas feridas e fazer aí um penso curativo jeitoso, vai fazer medicação para as dores, e a seguir vai lavar a cara, limpar esse sangue, por uma base, um blush, chamar a si a caixinha da saúde lá de casa, vestir uma roupa limpa e catita, espetar na cara o seu melhor sorriso mesmo sem um bocado de dente e vai à festa e vai mesmo. E no regresso gostava tanto que passasse por cá, só saio às 23 e adorava conhecer esses miúdos olímpicos que nadam num Sarau. Não é um buraco no passeio que a vai afastar de onde sempre quis estar. E acho que no final disto tudo ainda nos vamos rir as duas, que me diz Carla?

Sorriu para mim ainda meio a fungar por entre alguma dor e lágrimas, mas acenou com a cabeça a dizer que sim. No final do dia ainda tive direito à visita de uma mãe babada, com dois putos reguilas pela mão e um alguidar de plástico cheio de ameixas amarelas da horta dos pais. 
Acho que nunca aqui disse mas foi pela vontade de curar mais as feridas da alma que as do corpo que escolhi fazer o que faço há anos. Não sei se faço bem, se calhar não, mas juro que faço com vontade e gosto pelo que faço e depois destes anos todos, arrancar um sorriso a quem está magoado e a sofrer é das coisas que mais me enche o coração, e não haverá dinheiro nunquinha na vida que chegue para me pagar isso. Prefiro de longe ser paga com um alguidar de doces ameixas amarelas.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Uma das razões porque ainda continuo a acreditar no mundo em que vivo e nas pessoas que dele fazem parte...




Chama-se Carolyn tem 28 anos e vem do Colorado - Denver para atravessar de bicicleta parte da Europa até à Eslovénia por uma ciclovia a EV8 - EuroVelo que começa em Cadiz atravessa parte de Espanha, França, Itália, Grécia e por aí fora, completamente sozinha, com uma motivação e energia contagiantes e com muito menos traquitana e tarecos do que eu. Falámos da montanha, das suas e das minhas, de rappel e slide, e montanhismo, e escalada que eu não domino mas um dia quando for grande e com jeito para a coisa adorava saber fazer. Falámos de neve e de ski, e do prazer que é descer uma montanha e sentir a velocidade e o vento a bater na cara. Uma americana que nunca tinha visto o mar, nunca tinha ido à praia, não tinha sequer trazido bikini, não sabia o que eram lulas, e vi-me aflita para lhe explicar porque não me recordava como se dizia a palavra em inglês, mas mostrei a lata de conserva a um holandês e ele chutou num ápice - Squid! Fez uma cara feia e disse que era nojento (recusou-se a provar).

Sentadas no chão de pernas à chinês, partilhámos chá quente e bolachas, sopa, fruta e falámos de Lisboa, de História de Portugal, das profissões de cada uma, (ela é professora do ensino básico), de amor (ou não fosse tão mais fácil falar de amor e desamor com quem não conhecemos e que nunca mais vamos ver). E já de noite o calor de uma fogueira e a luz da lua adormeceram-nos cansadas, uma para cada lado enroladas nos sacos cama.

Foram só dois dias... e duas noites. Mas seguramente que me marcou. Inexplicavelmente há pessoas que passam à velocidade da luz na nossa vida e deixam marca. Quando partiu deixou-me tudo isto que aqui relato, escrito num bilhetinho colocado debaixo de uma pedra à porta da minha tenda, e ao ler confesso que a gaja feita de pedra que dizem que sou eu, amoleceu, e as lágrimas vieram-me aos olhos.

Dear Ana,

Thank you so much for everything you did for me these past two days. It was so kind of you to share meals with me, and even lend me a swimsuit! I loved getting to hear about your life as a nurse in Lisbon, and about your adventures, trekking and skiing! If you are ever in Colorado i would love to show you around. Enjoy the last few days of your vacation! If you would like to follow my trip, find me on Facebook, or instagram at ******

Obrigada.
Carolyn



 Obrigada eu Carolyn:))