terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Nunca é fácil... hoje foi só igual.





Paciente do sexo masculino, 28 anos, entrado na Sala de Emergência, vitima de acidente de viação por choque frontal contra um painel outdoor na via pública durante uma perseguição policial, recebido à entrada com sinais vitais estáveis, consciente, orientado, score 15, minimamente colaborante, mas apresentando sinais de dor intensa, e talas imobilizadoras nos dois membros inferiores. Possíveis fracturas cominutivas da tíbia e perónio em ambas as pernas por lesão traumática.

Assim que recebo um doente e se ele se encontra consciente a primeira coisa que faço é perguntar-lhe como se chama, dizer o meu nome e começar a trata-lo pelo seu calmamente, tranquilizando-o dentro do possível e falando em voz baixa e com algum carinho. Tenho por norma que quem está ferido, encontra-se vulnerável, em ambiente hostil, quase sempre assustado, e sem saber muito bem o que o espera, onde se encontra e com quem lida.

Chama-se Bruno, tem cara de miúdo, franzino, meio assustado, muito queixoso e explica-me como sofreu o acidente, viajava no lugar do pendura num carro patrulha, o colega apenas sofreu escoriações ligeiras nas mãos, ele é que não. São ambos policias e trata-se de um acidente de trabalho, exige por isso o cumprimento de normas especificas, recolha de amostra sanguínea para teste de alcoolemia e despistagem de substâncias tóxicas e mais eteceteras antes de outros procedimentos como uma simples colocação de uma via para um soro.

Explico-lhe os procedimentos e pego na tesoura para lhe começar a cortar a roupa, olha para mim e pede-me por tudo para não lhe cortar a farda, sobretudo o blusão, por favor tente tirar-me a roupa, não ma corte, eu tenho que pagar a farda, é me descontada no salário, insisto, mas tem que ser não há outra hipótese, e além disso isto é um acidente de trabalho, o seguro deve cobrir este desaire. Não, não cobre... por favor peço-lhe, não me corte a roupa, olhe para mim... olhei-o, olhos nos olhos... Sabe, são duzentos euros e esse dinheiro faz-me falta.

Parei para pensar durante alguns segundos e compreendi. Há razões que a própria razão desconhece. Não sabia que as forças de segurança tinham que pagar as próprias fardas num acidente de trabalho, não tem lógica e parece-me tremendamente injusto. O meu fardamento é me dado pela entidade empregadora e quando tem nódoas que não saem ou apresenta sinais evidentes de desgaste basta-me ir à secção de rouparia e requisitar um novo. Tenho direito a fardamento completo de dois em dois anos, que acabo por nunca utilizar.

A minha colega Picolé que foi casada com um policia e ficou viúva aos 28 anos quando ele morreu num acidente enquanto abria caminho no carro patrulha por uma Estrada Nacional para uma ambulância e chocou na traseira de um camião que estava parado na berma da estrada sem sinalização, começou de lágrimas nos olhos e a fungar...(talvez a frase mais longa que alguma vez escrevi) Pira-te gaja. Sai já daqui. Rua. Ela afastou-se, mas ficou por ali a preparar fármacos, a repor material. Longe mas perto. E a ver e ouvir.

Ouvi atentamente as razões dele, essas e mais umas quantas muito pessoais, e fiz de muito boa vontade um esforço enorme para em conjunto com os meus colegas lhe despir a farda sem a cortar. Blusão, camisa, camisola interior de lycra, tudo com imenso cuidado para lhe proteger a coluna cervical que ainda não estava estudada radiologicamente. Avaliei eventuais traumas da coluna, e fiz aquilo que não podia, é me interdito, e o código de conduta em politraumatizados não permite, mas as regras existem para ser quebradas em prol de uma boa causa, a favor de muitos Brunos que nesta vida me protegem, defendem, arriscam a vida por mim, têm família para sustentar, são extremamente mal pagos, constantemente agredidos e que infelizmente até o fardamento lhes é cobrado.


E já o tinha feito, e hoje voltei a fazê-lo, e ou muita coisa neste país muda ou provavelmente esta não será a última...

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

É sexta feira. Yesssss...





É sexta feira yéééé. Trabalhei a semana inteira e hoje é dia de ir para a brincadeira e por isso não tenho perdão (nem quero). Quer faça chuva ou quer faça sol a diversão vai ser muita. O meu boy vai estar por perto a passar férias cá dentro e o tempo vai ser de companhia, carinho e muitas gargalhadas. E quem não souber aproveitar cada segundo deste fim de semana é um ovo podre.

Not me.

Agora vou só ali ser feliz e já volto...

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Jantar...




A vida é para ser lambida - muito mais do que para ser vivida. 
A vida é para ser lambida até à última das gotas.

pensa bem...

E depois vai lamber como um desvairado antes que o tempo te lamba a vida.

Quantas gotas te faltam?

Pedro Chagas Freitas

Ele e ela convidaram-na. Ela aceitou. Ela trouxe o vinho. Partilharam o jantar. Partilharam o vinho. Falaram das profissões, da família, dos sonhos, das férias, da vida preenchida que cada um tem. Das muitas responsabilidades que lhes afogam os dias. Trouxeram para a mesa a amizade de há muito tempo. Partilharam-na. Confiaram cegamente. Recordaram momentos vividos anteriormente. Riram uma e outra vez. Riram-se felizes. Beijaram-se. Beijaram-se intensamente. Deixaram-se ir sem filtros, decantados e encantados no doce e quente do vinho. O rouge rubi ao rubro. Saborearam a vida lentamente.

Partilharam-se...

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Ao acaso, não façam caso...



Havia quem dissesse: a morte fica-te tão bem. 
Filme com a eterna Isabella Rossellini.
Hoje a mim disseram-me: a tua vida assenta-te tão bem.


Sim, vivo bem na minha pele. Tranquila nas minhas escolhas. De facto cada um tem que optar pela vida que lhe assenta melhor e cada caso é um caso.
 
O que serve a gregos raramente satisfaz os troianos.

domingo, 21 de Setembro de 2014

Sofázar...



Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem - Porquê? 
Eu sonho com as coisas que nunca foram, e digo - Porque não ?

George Bernard Shaw


O verbo inventado por mim e que hoje conjuguei com muito prazer enquanto por aqui ora trovejava e chovia a cântaros, ora fazia sol. Eu sofázo maravilhosamente e sem medos dos filmes fantásticos e lamechas. Who cares? E enquanto sofazava assisti a uma versão francesa da Bela e do Monstro com o Vicent Cassel, deliciada com os cenários brutais, os adereços de época, a magia dos contos de fadas e das histórias perfeitas de amor e a sonoridade musical da língua francesa que quase esqueci. E foram duas horas e meia mergulhada no reino da fantasia.