quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Está no ir...



Ajusto-me a mim, não ao mundo.
Anaïs Nin

Estradas longas fascinam-me. Há alguma coisa em desconhecer o destino que me seduz, e confesso que um longo caminho a percorrer é sempre um raio de um enorme desafio. Haja estrada. Haja caminho para seguir em frente. Tenho alma de fundista. É muito mais divertido ir que chegar. E infinitamente melhor ir, do que ficar. Preciso apenas que o caminho me agrade para me deixar ir, como se a paisagem envolvente me puxasse e fizesse também ela parte do prazer da viagem, para que o mover-me passo a passo se faça não pela pressa em chegar a algum lado, mas pela enorme satisfação que retiro de me deixar ir estrada fora neste lento caminhar ao sabor da vida. E que bem que me sabe deixar-me ir...

Vou!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Partitura de corpos...




quero ter-te. dançar-te. usar-te na cadência do teu corpo ao meu ritmo. vai e vem de ancas. braços e pernas. bocas. línguas. dedos. toca-me. toco-me.
 
puxar e empurrar. entrar. andamento lento primeiro. allegro depois. vivace.

dedilha-me. manipula-me. instrumenta-me o desejo. embala-me docemente neste faz-te voar. conheço a melodia. nota a nota repito acordes nos lugares que já sei de cor. eu sei-te de cor. tu sabes-me tocar. sem nunca errar. 

repito uma e outra vez o que é bom de usar.
com cada nota soltam-se gemidos. e palavras. poucas. a letra da nossa música.

sinfonia de sons.
e nesta coreografia de prazer cabe tanto por dizer.

domingo, 23 de agosto de 2015

Turno da noite...




Dói-me o corpo. Doem-me os pulsos, e os cotovelos. E os ombros. Dói-me tudo. Estou cansada, esgotada, e não quero reclamar. Não adianta reclamar. Acabei de sair da Sala de Reanimação. Deixei o Diogo para trás com as marcas do cinto desenhadas no pescoço, estendido numa maca, gelado, arroxeado, coberto por um lençol. Era a terceira tentativa dele. Foi desta. Vai ser preciso lá voltar, mas não agora. Resmungo baixinho que cheiro mal mas ninguém me ouve ou a verdade mesmo é que ninguém quer saber. Acabámos uma Reanimação mal sucedida, mais de hora e meia de manobras sem nunca desistir, revezámo-nos em cima do doente uma e outra vez, ouvimos a palavra "trocar" uma meia dúzia de vezes, utilizámos o desfibrilhador outras tantas. O Pedrinho tem nas costas desenhado as marcas de suor, eu sinto o cabelo colado junto ao pescoço e o suor a escorrer pelo peito, estou peganhenta e sinto o meu próprio cheiro o que me desagrada profundamente. Sinto-me agoniada, suja, cansada, dorida. Tão exausta. Queria tanto um abraço. Fazes-me falta. Aquece-me. A minha colega Picolé, a eterna palhaça da equipa brinca com a situação, corta o gelo que nos acompanha, o frio do ar respirável e do cadáver que ficou lá atrás mas permanece agarrado à nossa pele. Tenta animar-nos com uma piadola fácil, demasiado seca mas que nos faz sorrir - Eh malta! Não sei para que gastam dinheiro em ginásios, aqui o exercício é coisa que não nos falta. E é à borla, aproveitem. Suámos as estopinhas. E remata : Temos um cheirinho vai lá vai! A Lsd, alcunha de alucinada mas de quem o verdadeiro nome é Marta enrola-se a um canto. Faz sempre isto e calada rói as unhas. Larga as unhas - ouve-se alguém dizer. Somos fortes, estamos habituados a isto, de facto estamos habituados a quase tudo mas perder uma vida assim tão nova é coisa que mesmo a malta habituada a tudo nunca se habitua. São coisas.

...

Vejo as horas, já são três da manhã e não jantei ainda. Sinto fome e sede. Tanta sede. Lavo as mãos lentamente, molho a cara. Estico a mão para uma das muitas garrafas de água em cima da bancada, escolho a minha, pego na caixa da ceia e sento-me. No colo preparo um pão com um queijo daqueles que dizem que a vaca se ri, só não sei de quê parvalhona da vaca e a esta hora também não me apetece descobrir. É sempre a mesma ceia para aí há dez anos. Reclamo da merda da ceia hospitalar. Faz parte. Volto a pensar que me dói tudo e só ao sentar-me apercebo-me do cansaço. Passados uns minutos, muito poucos, de novo o besouro da Emergência. Dou um salto, deito o resto do pão no lixo, enfio os pés coloridos em meias de riscas nas socas que repousam ao meu lado no chão e corro ainda a tentar calçar-me para a sala de Reanimação. A tropeçar nos pés e a perder as socas. Entro, e em conjunto com o resto da equipa oiço a informação do médico do Codu. Doente do sexo masculino, 47 anos, encontrado em casa em paragem cardiorespiratória por possível overdose medicamentosa...

E foda-se começa tudo de novo. 

sábado, 22 de agosto de 2015

Macacada de noticias...




Passou uma noticia sensação no jornal das 20h. Foi abertura de noticiário em quase todos os telejornais. Dada com ênfase, muito explorado o tema como convém para causar sensação, mas raros pormenores sobre o que era a noticia em si. Foi um facto sigiloso, abafado, escondido, dias depois ignorado, e uma semana depois misteriosamente desaparecido. Remetido para a gaveta dos perdidos, para eventualmente num dia longínquo ser achado. Dizem que tudo o que desaparece e para o qual não existe provas, nunca existiu. É um facto! Toda a informação que aparecia na noticia era falsa. Local, hora, meios, situação dos envolvidos. E como é que eu sei isto? Simples. Porque estava lá! Trabalhava, que é das poucas coisas e muito contra a minha vontade que me fazem participar em noticias. Então porque razão se não se sabe nada em concreto, se fala nisso? Porque dá audiências, shares, estatísticas. É um chamariz. Não se diz rigorosamente nada com interesse mas especula-se e atira-se uns bitates para o ar, pode até ser que se acerte ou alguém se incomode.

E esta é só uma das muitas razões porque não vejo noticias. Quem lá estava ri-se à socapa com a palhaçada que é isto tudo...

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Recordações...




Fui buscar uma mala ao armário dos esquecidos à terceira prateleira a contar de baixo. Revirei-a. Tomei-lhe o estado. Aprovei-lhe o aspecto. Dei-lhe ordem de sair à rua. Há muito que não via a luz do sol sabia eu, e hoje era um bom dia para uma viagem de ida e volta. Já no carro remexi-lhe numa das bolsas para tirar o telemóvel, colado a ele, caiu-me no colo um bilhete de entrada no Zoo de Edinburgh datado de Outubro de 2011. Tive que encostar. Parar o carro e fechar os olhos por segundos. Vocês não sabem, porque num blog nunca se sabe tudo, nem conta tudo, mas em quatro anos certinhos a minha vida mudou tanto, mas tanto.

Fica aqui uma foto tirada por mim, numa pequena ilha de madeira no meio de um pasto de zebras no Zoo de Edinburgh. Caía uma chuva miudinha, o dia estava cinzento, e eu levava vestida uma parka branca com a gola debruada a azul e por baixo um polar quentinho. Não tinha frio. Para mim e só para mim o sol brilhava, e eu estava imensamente feliz. Fui feliz neste dia e nesta hora (da foto) mas tudo o que é bom acaba depressa. Parece. E dificilmente regressa. Parece também.

Restou esta boa recordação que regressou agarrada a um pedacinho de papel que misteriosamente ficou numa mala e hoje assim do nada, caído do céu aterrou no meu colo.