segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Chegar a casa...




São onze da noite. Fecho a porta do carro com o joelho e arrasto-me pela rua fora de socas, ainda fardada e com a mala ao ombro, a garrafa de água entalada entre o braço e o corpo, o saco com a roupa da rua na outra mão, a lancheira no outro ombro e o livro que ando a ler na mão. É muita coisa para uma mulher só. Pesam-me as coisas e pesa-me o cansaço de mais um dia que foi gigante. Interminável. Até chegar a casa começa a chover. Corro, mas não  o suficiente para não sentir a chuva que cai em catadupas nos meus braços em manga curta, pelos buracos das socas, no cabelo que ganha um novo look "de colado à cabeça" e nas pernas das calças finas que se prendem às pernas.

Chego finalmente à entrada do prédio. Vasculho a mala e lá encontro a chave. Porque será que demoro sempre uma eternidade a encontrar a chave? Fico mais molhada ainda. Mas já não estranho. Sabe-me bem. Gosto de chuva. Sempre gostei. E do cheiro da terra molhada. Vejo o correio. Instintivamente. Por hábito. Só chegam contas, e cada vez menos desde que aderi às facturas electrónicas. E nunca me lembro de ter recebido uma carta pessoal que fosse. Tenho pena. O meu amor podia-me escrever. Mas não escreve!

Subo os primeiros lances da escada e sinto o cheiro a bifes com batatas fritas no rés do chão, deve ter sido o jantar. Chamo o elevador. Espero e oiço o vizinho do primeiro andar falar alto e dizer umas palavras azedas com alguém de voz feminina. A mulher? Finalmente o elevador chega, carrego para o 8º andar. Vivo perto do céu, onde o azul à minha volta quase que se pendura na minha janela e o verde dos montes em redor confere-me paz e liberdade. A vizinha do lado jantou peixe frito com qualquer coisa. Sinto-lhe o cheiro. Não gosto de peixe frito. Não gosto de cheiros a comida.

Pouso a tralha que trago agarrada a mim e dispo-me de imediato. Não me sinto mais leve. Largo a minha segunda pele em formato hospitalar e rendo-me à primeira. Aquela que é apenas minha e de mais ninguém. Ao meu corpo, ao meu cheiro, à minha vida. Abraço o meu corpo. Apetecia-me tanto um cigarro. Eu que deixei de fumar há tantos anos. As lágrimas escorrem-me pela cara abaixo teimosamente. Que raio de dia. Sinto-te a falta. Vou tomar duche. O duche ajuda a lavar as lágrimas, mistura-se o sal da água com o sal da vida.

domingo, 14 de Setembro de 2014

Desculpas esfarrapadas...




Não são pães, são rosas Senhor. Assim reza a lenda da Rainha Santa Isabel quando visitava os pobres à revelia do rei, e lhes levava pão ao que consta no regaço. Não sei se a estória se passaria mesmo assim mas a lenda ficou para contarmos. Vem isto a propósito que cada um inventa as desculpas que quer. Ou melhor... que pode e a imaginação deixa.

Andamos com muita falta de pessoal lá no estaminé, muita gente tem saído para o estrangeiro com contratos sorridentes em Moçambique, Angola, Reino Unido, França e Arábia Saudita. Esta semana mais uma colega vai para Inglaterra e mesmo depois de 7 pessoas terem saído durante este último ano, por normas superiores certamente que divinas, não tem sido possível contratar ninguém. Os Deuses não deixam.  E sim, os Deuses devem estar loucos. Ou que se fazem omeletes sem ovos.

As equipas andam desfalcadas, nos mínimos dos mínimos. Os profissionais de saúde arrasados e quase todos com imensas horas positivas em bolsa ( horas que não são pagas ) aguardam apenas disponibilidade do serviço para serem gozadas. Já se fecharam salas da Unidade por falta de pessoal, já temos uma escala adicional à escala do mês, de seguimentos de turnos porque faltava pessoal na passagem de turno para a rendição e não havia ninguém disponível para seguir ( até os profissionais de saúde têm vida própria certo?) e agora por ultimo estamos em casa, no cinema, na praia, de calças para baixo, a pinar e o raio... e a porra do telemóvel não pára de tocar e de incomodar cada um a qualquer hora e com a mesma pergunta de sempre. Podes fazer a manhã amanhã? Ou outra igualmente fixe... Podes fazer a noite de hoje? Já não há pachorra, nem cu que aguente. Queremos paz e sossego quando não estamos a trabalhar.

Como o cenário é este, recorrentemente...
Passámos a ouvir as desculpas mais divertidas e imaginativas que o ser humano é capaz de criar. 

Enfª Chefe - Liguei-te ontem à noite. Não atendeste. Eu disse que tinham que estar contactáveis.
LSD - Não devo ter ouvido o telemóvel. Ando muito cansada, fico surda.

ahhhhhh... risos.

Enfª Chefe - Liguei-te eram 22h. Precisava que viesses fazer noite. Não atendeste. Não gostei nada.
Duarte - Deite-me cedo. Quando adormeço já não oiço nada.
Enfª Chefe - Mas eram só 22 horas.
Duarte - Foi o que eu disse.  Deitei-me cedo.

ahhhhhh.... risos.

Enfª Chefe - Liguei-te ontem para ver se podias vir fazer a manhã. Desligaste a chamada, percebeu-se.
Pedrinho - Eu ???? Nada disso... o meu telemóvel tem é uma tecla estragada. Quando atendo desliga-se e já não liga.

ahhhhhh.... risos. 

Enfª Chefe - Liguei-te 3 vezes. A chamada foi sempre para o voice mail, deixei mensagem. Sempre que assim for, tens que me contactar.
Picolé - Eu????? Nem tinha o telemóvel comigo. Esqueci-me dele no cacifo no bolso da farda.

ahhhhhh... risos.

Enfª Chefe - Liguei-te toda a tarde ontem. Pelo menos umas 5 vezes. O telemóvel toca, toca, e ninguém atende.
Judy - O meu telemóvel parece que toca, toca, mas não não toca nada. É impressão. Até eu fico na dúvida.

ahhhhh... risos. (minha preferida)

E assim vai o relacionamento entre telemóveis, pessoas, e o meu serviço. Quem disse que a tecnologia acrescentava tempo e liberdade enganou-se e enganou-nos, estamos quase a ser escravizados pela tecnologia. E qualquer dia com o gps e a localização móvel activa, a "Chefe" passa pelo local onde estamos a curtir a natureza, a vida, e com as ditas calças na mão e leva-nos por um braço à força e a espernear para irmos trabalhar.
Bem vindos ao admirável mundo novo.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

IN tenso...






Digo-te já que te quero. Sem conversa fiada. Directa ao assunto. Sem rodeios. Atiças-me o desejo, preenches-me na integra, arrebatas-me a mente. Estremeço sempre que penso nas tuas mãos em mim, deixo que um arrepio intenso me magnetize o corpo, que um formigueiro me invada sem pudor e tome conta do que sou. Sonho com a hora em que entrelaço os meus braços no teu pescoço, procuro a tua boca, e devoro-a sem delicadeza ou licença para entrar. Com as minhas mãos percorro o teu corpo e deixo que te exponham a vontade, dispam a roupa e excitem cada pedaço de pele. Sinto-te a tremer e não é de frio.

Mandei alinhar os planetas, abrir um espaço na linha do tempo, parar a cronologia dos minutos, por isso durante o nosso tempo, concentra-te, inventa-te para mim, liberta-te de amarras, esquece a sociedade e a organização mundial. Não há mundo. Nesta batalha não há vencedores. Esforça-te! Aqui é o único sitio onde te exijo tudo, dá o teu melhor sem restrições ou barreiras.

Quero raptar-te, usar-te, esgotar-te as forças, o medo e o corpo. Exaurir-te o desejo e abusar de ti uma e outra vez, sem tréguas, sem qualquer noção de tempo e do teu ou do meu cansaço. És meu sem limites. Sabes que a minha vontade não se esgota, sabes o que te espera. Não resistas, acompanha-me, segue os meus movimentos, persegue a minha fúria, será mais intenso, mais marcante e maravilhosamente pior. Não desistas ainda, ouve o que te digo...  

Deixa o bom senso em casa, a delicadeza agarrada à camisa e ao casaco, despe a roupa de bem comportado, pinta a manta, porta-te mal, faz o que não deves, fala o que não queres, arrisca, surpreende, deixa-me sem ar, tira-me o fôlego, tira-me do sério, estica-te, vira-me do avesso, deixa-me sem norte, pisa o risco, ultrapassa a linha. Quero-te sem limites.

A ti...  IN tensamente.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

O meu Bloco hoje teve música, dança e uma menina que me deu uma lição de vida...




Chama-se Catarina. É pequenita em tamanho, gigante nas atitudes. Vou recebê-la ao transfer. Vem numa maca vestida apenas com uma bata hospitalar cor de rosa, e uma touca igualmente cor de rosa na cabeça. Meto-me com ela. Ai que gira Catarina, vens toda a condizer. És tão bonita. Sorri-me num sorriso gigante que começa na boca e acaba nos olhos. Doce. Resisto para não lhe pegar ao colo.

Os maqueiros aproximam-se da maca para efectuarem o transporte até à porta da sala do Bloco Operatório. Olha para mim e diz-me: Posso ir a pé? Gostava de ir a pé, consigo andar... ainda consigo andar. O "ainda" diz-me muito, mas ignoro metade da frase e respondo-lhe que sim, que pode ir a pé. Senta-se de imediato na maca e quase num salto quer descer. Espera Catarina, vou pedir uns overshoes para os teus pézinhos, não vais por aí descalça miúda. Ela espera sentada, de olhar atento ao que a rodeia. Vejo os minutos passarem e vejo-lhe os olhitos muito abertos a absorverem tudo o que se passa, gente de fato de circulação verde, socas de todas as cores e modelos, soquetes coloridas, corredores compridos e frios quase gélidos mantidos a uma temperatura adequada pelo ares condicionados que trepidam ruidosamente nas condutas por cima das nossas cabeças. 

Caminha agora ao meu lado. Devagar. Estendo o meu braço e dou-lhe a mão; Não precisas dar-me a mão, não sou nenhuma bebé. Claro que não Catarina, que disparate o meu, foi só um miminho se me deixares, claro. Devolve-me a mão. Entramos na sala B do Bloco Operatório assim, eu grande, ela pequenina as duas de mão dada. Sinto-a estremecer. Tens frio Catarina? Tenho sim, mas tem que ser. O tem que ser revolveu-me as entranhas. Demasiado consciente de tudo, demasiado adulta para os seus 7 anos de idade. Fez-me estremecer a mim também e não de frio. Ajudo-a a deitar na marquesa operatória. A mesa cirúrgica está semi posta com algum do material instrumental, o meu colega que vai instrumentar a cirurgia desinfectado e pronto para a chegada dos cirurgiões ortopedistas que foram "lavar-se", a médica anestesista com o trolley de entubação e a mesa com o material anestésico ao lado para iniciar todos os procedimentos. 

O computador está sintonizado numa radio on line e toca baixinho os primeiros acordes de New York da Alicia keys, ouve-se  Uúúúúú New York, I grew up in a town that is famous as a place for movie scenes...Ouve-se uma vozinha sumida ao longe. Posso dançar? Só esta musica, posso?
Olhamos todos uns para os outros, depois todos, mas todos em simultâneo para a Dra. Fátima, a última palavra pertence à anestesista responsável pela sala. Não foi preciso esperar. Claro que sim Catarina, vamos lá dançar que esta música faz toda a gente dançar. Ninguém fica quieto, todos nós dançamos desde o auxiliar de acção médica aos 4 enfermeiros presentes e até aos cirurgiões. Abanamos as ancas, sacudimos os braços e as pernas e agitamos o corpo em sintonia com a Catarina pequenina, ainda menina, a dar voltas e voltas no chão de vinyl envolta numa bata de bloco meia aberta.

A música acabou. A Catarina foi picada, anestesiada sem um choro ou um único ai. Nunca lhe vi os olhos brilhantes ou sequer uma lágrima. Pedi-lhe que sonhasse com coisas boas, gomas de ursinhos e as férias que passou com os pais e o mano mais pequeno no Algarve e na Isla Mágica. Sofre de osteossarcoma osteoblástico de grau III, não apresenta quaisquer metástases e as hipóteses de sobrevida são muito boas por não apresentar lesões secundárias. Mas vai perder uma perna e isso nunca mais ninguém nem nada na vida lhe poderá devolver.

Mas com a força dela, acredito que vai voltar a dançar.

domingo, 7 de Setembro de 2014

Regras minhas neste meu mundo...




Se te incomoda e te parece errado. Não o faças. Nunca.
Diz exactamente o que queres. Sem nin`s nem assim assim`s.
Não te anules nunca. Mesmo quando queres ser apenas simpática e agradável com os outros.
Nunca desistas dos teus sonhos. Mesmo dos mais impossíveis. Um dia realizam-se.
Não tenhas medo de dizer Não.
Não tenhas medo de dizer Sim. Ou que te julguem por isso.
Agrada-te a ti mesma em pequenas coisas. Generosamente.
Entrega-te sem receios se achares que vai valer a pena.
Deixa partir quem voluntariamente quis partir. Tu sabes que não se prende ninguém.
Deixa fluir o que não consegues controlar. Tudo se resolve mais tarde ou mais cedo.(menos a morte).
Todos os problemas têm solução. E os que não têm, estão automaticamente resolvidos. 
Afasta-te de gente cinzenta, chata, picuínhas, cheia de dramas, problemas e negativismo.
Apoia-te nas gargalhadas, elas curam quase tudo.
Vive intensamente o mais que puderes, amanhã podes já cá não estar.

Estas regras sigo-as há muito...