quarta-feira, 1 de julho de 2015

Coisas mesmo boas. Quando...




Quando ele é maravilhoso! 
E não porque é o super homem ou porque na cama faz mortais encarpados e piruetas conjugadas com triplos mortais e flick flacks à retaguarda só para fazer acontecer magia ou levar-me ao céu. Não, nada disso... Simplesmente porque é ele, porque me faz feliz e porque eu sinto que se esforça mais que muito em me fazer feliz. E essas coisas não se fingem, sentem-se e pronto. Sente-se no corpo, no olhar, nos beijos trocados, na presença, nos sorrisos, na sintonia, nas palavras ditas e até nas que se calam e guardam para não dizer. E quando aparvalhada com o que me aconteceu e que não controlei de todo me pergunto o que me levou a gostar de alguém quando garanto convictamente e muito senhora de mim que isso estava a milhas dos meus planos, quando sempre fugi de relações e ralações, percebo finalmente nestes momentos o que o torna tão especial para eu afinal gostar tanto de andar por aqui.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Coisas do meu eu...






A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.
Sigmund Freud 
o senhor que disse algumas umas coisas muito acertadas



Saí de vela às 8 da manhã de Domingo, cansada qb, mas não demasiado cansada. Senti o fresco da manhã e o cheiro a vida para além do mundo hospitalar. Não havia doença. Havia uma luminosidade brutal, um céu azul lindíssimo, o verde da relva dos jardins sobressaia por todo o lado, aqui e ali salpicado pelo colorido das imensas flores. Tanta cor. No ar o cheiro intenso a terra molhada pelos aspersores de rega que cumpriam a sua função com dedicação, e o chilrear dos pássaros numa barulheira divertida ainda não abafado pelo ruído dos carros - e para meu espanto, tantos pássaros que àquela hora conversavam animadamente.

Parada no semáforo, janela aberta, senti o prazer da vida, o luxo de ter um dia pela frente totalmente meu, para eu gastar como eu quisesse e com total liberdade para fazer o que me apetecesse, e o quão sortuda sou. E percebi naquele mesmo instante que a felicidade é isto... Momentos como este.


domingo, 28 de junho de 2015

Nem tudo o que parece é...




Não acredito em nada perfeito, o mais perto que estive da perfeição foi na natureza e mesmo assim há coisas que podiam ser mudadas e que pelo facto de existirem me espantam. Acho até que a perfeição se é que existe é enfadonha, e inimiga do óptimo. No entanto todos a buscam. A qualquer preço, de qualquer forma. Vivemos num mundo de faz de conta. É mais importante parecer do que ser. Interessa parecer rico mesmo que não se tenha onde cair morto e as finanças já nos tenham penhorado tudo menos os elásticos das cuecas, interessa parecer culto e com um cargo importante mesmo que tenhamos feito a quarta classe para adultos à noite e mal, e depois agarrado com unhas e dentes um curso das Novas Oportunidades, ou tão somente fazer uma licenciatura ao Domingo e com equivalências a cadeiras que nem sabíamos que existiam. 

A vida tem destas coisas, destas singularidades que fazem alguém parecer o que não é, e ser aceite e desejado pelo que aparenta ser. Recebi na minha última noite uma paciente do sexo feminino, por um motivo que vou omitir voluntariamente precisamente para preservar o seu estatuto de vedeta, sobejamente conhecida do mundo da moda, linda de morrer (dizem... eu não acho), daquelas por quem os machos se babam na hora e que deixou os meus colegas de equipa de olho bem arregalado para depois abrirem a Caixa de Pandora e finalmente terem o privilégio de ver in loco o que estava por baixo do vestido justo. Tinha um corpo magro, de formas perfeitas, sensual, bonito à vista.

Quando começámos a despi-la fomos sendo presenteados com um intrincado mapa de cicatrizes dignas de uma sobrevivente à dura guerra do Ultramar. Acho até que há veteranos de guerra com menos marcas na pele. No tórax, marcas de dois furos, uma debaixo de cada axila com respectiva cicatriz para colocação de implantes mamários de volume muito acima do normal e desejável num corpo extremamente magro, demasiado até. Junto à auréola do mamilo duas cicatrizes bem visíveis consequência do ajuste e centragem do mamilo ao novo volume. Mais abaixo no abdómen junto à linha do púbis uma linha fina assinala o território de uma abdominoplastia e nas nádegas vários furos, buracos mesmo de drenagem linfática de gorduras, vulgarmente chamada lipoaspiração.

Por esta altura o meu colega Pedro já tinha dito baixinho e após constatar a sua extrema magreza onde se contava o numero de costelas, e o rebordo dos ilíacos ... porra isto não é uma mulher é um crucifixo! Ao que o meu colega Duarte tinha respondido - elas e a mania de serem uns cabides, uma mulher quer-se com curvas, com chicha para agarrar; e quase todos nós sorrimos com aquela afirmação que nos pareceu tonta. No pescoço, e na face junto à inserção do cabelo cicatrizes várias bem disfarçadas por maquilhagem e ocultas de plásticas para correcção da face, e no rebordo dos lábios marcas de picadas de agulhas, muitas, imensas, para introdução de botox, que dá às mulheres aquelas maravilhosas beiças de pato, e que para mim é mesmo é boca de peixe Charroco. Quem lhes disse que aquilo era bonito enganou-as. Aquilo é artificial, completamente ridículo e feio que dói.

Não sou moralista nem preconceituosa (ok se calhar um bocadinho) - tenho dias, acho que cada um faz com o corpo que por acaso é seu, aquilo que muito bem quiser, mas substituir pequenas imperfeições por outras imperfeições envoltas em dor e talhadas a bisturi e agulhas não me parece lógico. Sou uma mulher de carne e osso. Imperfeita, mas gosto muito de mim. Prefiro de longe a minha celulite no rabo a marcas de furos nas coxas, prefiro o meu peito pequeno a duas bolas de silicone separadas pelo infinito, firmes, hirtas e rijas ao tacto, prefiro a minha barriguinha que é minha a passar por uma anestesia e uma dolorosa cirurgia e uma cicatriz para sempre...

Mas não somos todos iguais...e a vida continua a ser feita de escolhas e de aparências.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Não bata no vidro...




Deixe o seu pedido de tratamento 
e aguarde a sua vez na sala de espera.

"Não bata no vidro"


Frases escritas em letras garrafais num guichet de atendimento de uma Sala de Tratamentos de um Centro de Saúde.

Oiço um estrondo brutal acompanhado de duas murraças bem assentes no dito vidro, quase que dou um salto e espeto a agulha do injectável que estava a administrar na coxa do doente em vez de no quadrante superior externo do grande nadegueiro. Interrompo o que estava a fazer, deixo o doente de rabo para o ar e cu ao léu e venho de lá de seringa na mão, agulha em riste capaz de enfiar a agulha por um olho adentro do animal que fez semelhante coisa.

Deparo-me com uma mulher dos seus quarenta e poucos anos de braço no ar, a preparar-se para dar nova murraça no tal vidro de atendimento.

- Desculpe lá, a senhora não sabe ler?
ela com cara de parva a olhar para mim...
-Leia lá o que está aí escrito... e aponto para o vidro.
Ela lê ;  Deixe o seu pedido de tratamento e aguarde a sua vez na sala de espera.
E continuo...E depois? O resto...Leia tudo.
Ela a olhar para as letras gigantes e a ler... Depois... Bata no vidro.

 Tive para lhe dizer, diz aí bata no vidro mas com a cabeça


E assim vai a compreensão da malta. Lê mal, só entende metade, ignora a outra metade e no final ainda cheia de razão, ateima. Dão agora um nome giro a isto - Iliteracia, eu chamo-lhe mesmo burrice.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Conversas parvas no trabalho...





Na sala de tratamentos

- Baixe as calças se faz favor.
- É para apanhar no cu?
- Não; é mesmo para  fazer um injectável no rabo. 
hoje não trouxe o Dildo

Conversa entre duas doentes no corredor

-Isto aqui (a urgência) é tal e qual como a Anatomia de Grey, eles algures por aí devem ter também um quartinho onde se comem uns aos outros. Quando é de noite, deve ser giro deve.
Resposta de um colega meu que ia a passar
-Se existe, eu em tantos anos que aqui trabalho ainda não vi nada, mas se o descobrir avise-me que eu também gostava de comer alguma coisa.

Uma colega para um médico

- O Dr. Alberto é muito bom ortopedista porque não vai ter com ele para lhe pedir uma opinião?
- Ele é mesmo bom ortopedista?
- É pois... A alcunha dele é o cavalaroco, era ortopedista na tropa. De cavalos.
- Ahhhh ok, e eu sou uma cavalgadura!

Na triagem uma colega para um doente que refere dores abdominais.

-O senhor é obstipado?
-Não, não estou constipado. Eu nunca me constipo menina.