segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ficas aqui que aqui é que tu estás bem...






O quarto tem o formato de um quadrado. Branco. Simples. Acolhedor. Aconchego-me nos braços que são os meus. Afundo-me na almofada e fecho os olhos. Cheira tão bem. O sono não vem. Insisto que o dia amanhã vai ser longo e descansar é preciso. Saltam os sonhos, sem dormir. Slides de lugares e recordações alinhados em fila. Numa gigantesca fila. Locais, tantos locais. Só nossos. Esquecidos, escondidos, inventados e re-inventados por nós. Fotos que balançam penduradas num cordão de algodão sobre a minha cabeça. Nuvens repletas de sonhos já concretizados, outros tantos por concretizar passam rápido como num filme. Estrelas brilhantes por descobrir. Às vezes só a luz do luar a espreitar pela janela meia aberta. E a lua. A minha lua que um dia já foi azul e só nossa. E o sono não vem. Conto carneiros, somo palavras ditas, sussurradas ao ouvido, sopradas em outras tantas noites acordada num quarto aquecido e narizes entupidos, cervejas lá fora a gelarem na neve e flocos brancos a caírem. Dou mais uma volta na cama, ajeito a almofada e aconchego o corpo. Tento adormecer.


Oiço uma voz arrastada junto a mim. Tenho os braços abertos para ti, anda cá, aninha-te aqui. Saio de repente do mundo dos sonhos. Deixo a almofada e encaixo-me na perfeição naquele corpo nu, quente. Encosto a cabeça no peito de pelos suaves que cheiram ainda gel de banho de jasmim, respiro fundo, cheira tão bem. Deslizo os pés descalços por aquelas pernas peludas e sinto a suavidade da pele e a rigidez dos músculos. Ele estremece. Beija-me o cabelo uma e outra vez. Oiço-o dizer: Não sais daqui. Ficas aqui que aqui é que tu estás bem.

E finalmente adormeço.

domingo, 30 de outubro de 2016

Vamos BRINCAR a aterrorizar amigos porque o que está a dar é animar a malta... tristezas não curam doenças, não pagam dívidas e não trazem amigos ou amor.



Era uma vez uma múmia ensanguentada que andava à deriva pela floresta sem rumo e sem destino, 



pelo caminho encontrou um palhaço assassino que a perseguiu com um machado afiado,




enquanto a noiva cadáver de cabeça semi decapitada sacudia o vestido e se ria a bom rir.


O seu riso acordou a morte e agitou a capa do Drácula que de imediato mostrou a terrível dentuça e desatou a querer morder o pescoço das lindas donzelas à volta. Atrevido o menino Drácula.


Houve ainda um Saw e o seu triciclo, um lobisomem a devorar um joelho de porco, uma bruxa, e é claro - a famosa menina do exorcista em pé numa cama.


Só consegui tirar algumas fotos porque no meio da Serra de Sintra por caminhos de vegetação cerrada, a passar por cima de troncos caídos, subir a pedras, enfiada em casas abandonadas e iluminada apenas pela luz da lua tive muito mais entretida a perceber por onde ia, e onde punha os pés antes que acabasse sem os dentinhos da frente que por acaso até me fazem muita falta.



Foi super divertido. Ri-me até me doer a barriga, e a pedir a todos os santinhos amigos parem com isso por favor!  As nossas gargalhadas e gritos assombraram a serra e acordaram as alminhas abandonadas que por ali vagueavam. Fazemos uma equipa brutal. Já é o terceiro ano que fazemos isto e cada vez estamos mais criativos e empenhados. Para o ano cá estaremos, haverá mais, e quem sabe melhor.

sábado, 29 de outubro de 2016

A propósito das minhas rotundas e estrelas cadentes a caírem em rotundas...



Na varanda a ver a lua.


Ele sentado, refastelado numa cadeira a apreciar as estrelas e a fumar um cigarro. 
- Acabei de ver uma estrela cadente. Linda!
Eu a olhar para o céu sem ver já nada que se parecesse com uma estrela a cair. 
- E pediste um desejo? 
Ele com cara de ursinho de peluche a olhar-me, os olhos verdes ainda mais verdes a olharem para mim com genuína ternura para dentro de mim.
- Pedi há muito para ser feliz, e já sou.
...

Quando algo corre bem, assim mesmo muito bem, isso não é possível pois não?
Hummmm.
Ninguém tem tanta sorte assim. Só pode ser ficção.
Os meus deuses devem estar loucos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Estou cheia de medo...



You say that you love the rain, but you open your umbrella when it rains.
You say that you love the sun, but you find a shadow spot when the sun shines.
You say that you love the wind, but you close your windows when wind blows.
This is why I am afraid, you say that you love me too. 

- William Shakespeare 


O matraquilho azul acabou de me dizer que me ama. Ai a porra. Ai o caracinhas. Estou feliz.... mas cheia de medo. 
Estamos fodidos Zé

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Chamava-se Passado...




Talvez a gente esteja no mundo para procurar o amor, encontrá-lo e perdê-lo, muitas e muitas vezes. Nascemos de novo a cada amor, e a cada amor que termina, abre-se uma ferida.

Estou cheia de orgulhosas cicatrizes.

Isabel Allende
...


Ela quis muito chamar-lhe presente, insistiu com muita força, durante muito tempo e até ao final. Ele manteve-se constante e teimou em lhe chamar passado.

Nasceu assim, passado de nome.
Morreu assim, passado no presente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Ando ocupada...








Este ano vai ser muito pior ainda, andamos nos preparativos há semanas, demasiado ocupados a consultar sites, a retirar ideias, a programar o percurso e a inventar máscaras. E vai ser brutal. Muito melhor e mais completo que no ano passado. Já temos um saco de falecidos, já temos uma armação de dentista (é horrível) e uma máscara de Saw e Hannibal Lecter. Somos doidos é verdade mas somos divertidos e cada reunião é uma barrigada de riso. Só preparar isto tudo, cada detalhe, cada pintura, já enche de gargalhadas a alma. Vale a pena cada segundo.

Começámos por criar um percurso na floresta, desbravar terreno até se for caso disso, encontrar uma casa abandonada, etc, dividimos em seguida o percurso em zonas, de 1 a 5, cada zona tem um responsável que escolhe os elementos que vão trabalhar consigo, o tema e as máscaras que querem. A parte gira é que eu sou da zona 1 conheço o que se vai passar aí mas quando atravessar a zona 2 e as restantes zonas vou ser completamente surpreendida e aterrorizada. É bonito de ser ver. Uiiiii.

No entanto este ano há outra grande novidade a acrescentar às novidades das diferentes máscaras, vou levar comigo o matraquilho azul, o cabeçudinho cá de casa e finalmente  e depois de muita insistência do pessoal apresentá-lo aos que faltam dos meus amigos. Temos um código de aprovação entre nós, muito simples, elementar, e comum a todos os novos elementos que surgem pelas mãos delas ou deles no nosso grupo de amigos, igual para ambos os sexos. Se for aceite pelo grupo é tratado pelo nome, se não for aceite é inventada uma alcunha das mais estranhas que possam imaginar, o ultimo que por lá apareceu, ex-namorado da minha amiga Sónia era o Juvenal, mas já tivemos um Ambrósio, um Hilário, uma Miss Tremoços e uma Claudette. 

A parte mesmo boa é que vou ser aterrorizada pelo pessoal mas vou ter um braço ao meu lado para me agarrar e um guarda pessoal para me proteger (espero eu). E isso é muito bom.

sábado, 22 de outubro de 2016

Amor com A grande, e orgasmos atrás das orelhas...





É quase Natal  e eu hoje vou contar uma história de amor, com A grande, verdadeira, e daquelas à séria. Porque me apetece.

O Pedro tem 34 anos é bancário vai para o trabalho num vulgar dia de semana como são quase todos os dias de manhã, saiu de casa dos pais onde mora e de repente em plena IC19, cai-lhe um viaduto pedonal em cima... assim sem mais nem menos, vindo do nada, sem culpa, sem razão, sem ninguém perceber. Apenas um acaso daqueles inexplicáveis, e por um mero acaso o Pedro vai para o sitio onde trabalho e entra na Unidade de Trauma onde é assistido e onde passadas muitas horas e muitos exames complementares de diagnóstico é informado pela especialidade de Vertebromedular que tem secção de medula e que vai ficar paraplégico. Brutal e sem papas na língua.

Esta história é vulgar. Nada de novo por aqui. O invulgar surge depois. Já ouviram falar de histórias de amor entre médicos e enfermeiras, fruto de muitas séries e ficção, esqueçam tudo o que viram, eu em 20 anos de profissão juro que nunca vi nenhuma. Esta é uma história de amor entre uma enfermeira e um doente, linda, perfeita, e porque ainda perdura, todos os dias é-lhe acrescentado um dado novo. A minha colega Ana Joana acompanhou o Pedro no internamento prolongado já noutro hospital (o da área de residência), nos tratamentos longos no centro de reabilitação, ajuda-o, ensina-o a sobreviver, anima-o, ouve-o, acarinha-o e a magia acontece, aquela coisa inexplicável quando dois seres se apaixonam. 

Acabam por viver juntos e a Ana adapta a casa, manda colocar uma rampa na entrada do prédio, pegas de suporte na casa de banho, com adesivo marca um quadrado no chão junto à cama onde todos os dias devem ficar colocados os sapatos do Pedro para que de manhã se consiga calçar para ir para o trabalho, porque se ficarem por exemplo mais de lado ou debaixo da cama ele já não os alcança, colocou um banco dentro do poliban para que o Pedro tome o seu duche sentado e como enfermeira que é ensinou-lhe a entrar na casa de banho de forma autónoma e a usar um catéter vesical 3 vezes ao dia para que não ande algaliado e de saco de urina preso à perna.

Cada dia é uma vitória, cada dia o rosto da Ana ilumina-se com pequenas batalhas vencidas, uma a uma, pouco a pouco, numa luta imensa contra as dificuldades. Somos mulheres, somos muito amigas, demasiado cúmplices na equipa e somos enfermeiras, temos este à vontade de falar de tudo naturalmente, sem subterfúgios, meias palavras ou malícia. Sabemos como a Ana e o Pedro se tocam, o que cada um faz ao outro para conseguirem ter prazer, do uso de brinquedos eróticos, e estamos a par do carinho e generosidade do Pedro e das suas profundas limitações também. O Pedro está paralisado da cintura para baixo, com total perda de sensibilidade e com todas as implicações que isso tem, mas é o tal para ela.

Hoje a esta história de amor acrescenta-se um precioso dado novo. Aquele que poderá fazer toda a diferença. A Ana Joana tem 40 anos e já algum tempo que sonhava, num sonho vago e demasiado longínquo em ter filhos biológicos, e como por magia tornar o Pedro pai. Hoje entrou no serviço radiante, de olhos felizes e dou com ela a mexer no armário das seringas e a dizer: Vou levar daqui 3 ou 4 seringas de 20 cc, estimulei o Pedro no pescoço, na nuca e nos lóbulos das orelhas e consegui que ejaculasse, com estas seringas vou recolher o sémen e introduzi-lo em mim para ver se consigo desta forma engravidar. 

Olhei para ela, abracei-a... ai miúda, Deus queira que consigas, um amor desses deve poder tudo porque só os amores com A grande são como o teu.

Que fizeste ontem AC?

A simplicidade disto. 
Acompanhada de amigas. Uma "girls night out". E não foi bom, foi super bom!










Às vezes...


Às vezes não sei o que queres e digo ok.
Às vezes não sei o que faço e tu tá bem.
Às vezes fazes de propósito, eu sei.
Uma vez não são vezes e eu não digo a ninguém. 

shhhhhhh.... 
eu não digo a ninguém, 
que me queres e preferes aos outros que tu tens.
Eu sei que é difícil quando o clima é propício,
controlares esse teu vício que tens por mim desde o início. 
ok.

Eu quero e faço por isso e tu queres um compromisso.
E eu sou mais de improviso e tu só queres ficar bem.
E ficas doida comigo porque tens noção do perigo,
mas eu não sei se consigo dar-te tudo o que tenho. 

Sabes que te quero embora seja às vezes. 
Tento ser sincero, só que tu não me entendes. 
Não tenho culpa, mas não sinto o que tu sentes. 
Hoje ficas cá em casa, uma vez não são vezes.


D.A.M.A. - Às vezes

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Aqui não se passa nada, nadinha, nada de coisa nenhuma...




Hoje vou contar uma história minha, até porque alguém uma vez me disse que eu era uma excelente contadora de histórias. Mentiu-me claro. Não sou, mas juro que me esforço como em tudo o que faço na vida. E como toda a gente sabe as verdadeiras histórias de sempre começam com...

Era uma vez,
...

uma rapariga que acreditava em pessoas, sobretudo em boas pessoas e de bem, incapazes de tomarem atitudes feiosas pelas costas, sem atitudes menos dignas, gestos de raiva, e coragem nas palavras para falarem cara a cara tudo o que devem sem magoar voluntariamente. Não gostava de gente que economizava nas palavras porque ela mesma não guardava nada do que achava que devia dizer, não calava o que a incomodava e sempre educadamente e de forma civilizada deitava cá para fora tudo o que lhe ia lá dentro. Por bem, e a bem. Talvez por isso, esperava também isso dos outros. Nem sempre acontecia, e aqui e ali ainda havia quem pontualmente a conseguia surpreender, felizmente muito mais pela positiva do que pela negativa, mas de vez em quando pela negativa também.

Não guardava mágoas nunca, nem coisas mal resolvidas, guardava pessoas, gente e não gentinha que em algum lugar e em algum momento tinham mexido consigo e tinham entrado na sua vida porque ela assim quis. De braços abertos como só assim era capaz de estar, sempre com um enorme sorriso e com mão direita na porta de casa ligeiramente entreaberta a convidar a entrar. Capaz de tudo dar. Capaz do melhor de si.

Depois havia ao longe os outros. Num lugar distante arrumados no lugar dos quase esquecidos e nadinha importantes os que a magoaram e lhe trouxeram o desconforto do amargo de boca. Também não guardava com ela as decepções. Essas varria-as como aquilo que são para debaixo do tapete, compunha a casa, e esquecia-se que estavam por lá até ter forças para aspirar tudo de uma vez por todas e fazer uma limpeza geral. 

Hoje começou as ultimas limpezas grandes de Outono, estão quase feitas e brevemente o que foi, quem já foi, será apenas um grão de pó. Do que restava da amizade sobrará a proporção certa de nadadecoisanenhuma na sua vida.

Cheira a Outono...




Em  certas manhãs de Outono, nas esplanadas sente-se uma friagem que nos beija o rosto, enquanto o sol nos aquece os olhos.

Como se fosse um gelado de baunilha com chocolate quente.

João Morgado - Diário dos Imperfeitos



Adoro regressar às collants, às botas, às saias de malha e aos casacos. Gosto das manhãs de neblina, do frio a arrepiar a medo a pele, dos almoços na esplanada a saborear o espreitar tímido do sol deliciada com o suave quente do meio dia, gosto das mil tonalidades de castanhos e amarelos que se misturam com audácia, gosto dos dias mais curtos a convidarem ao descanso no sofá e ao aconchego dos abraços, gosto dos entardeceres cinzentos, gosto do cheiro da terra molhada nas primeiras chuvas. Adoro o Outono.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O meu Bloco hoje teve música, dança e uma menina que me deu uma lição de vida...





Chama-se Catarina. É pequenita em tamanho, gigante nas atitudes. Vou recebê-la ao transfer. Vem numa maca, vestida apenas com uma bata hospitalar cor de rosa e uma touca igualmente cor de rosa na cabeça. Meto-me com ela. Ai que gira Catarina, vens toda a condizer. És tão bonita. Sorri-me num sorriso gigante que começa na boca e acaba nos olhos. Doce. Resisto para não lhe pegar ao colo.

Os maqueiros aproximam-se da maca para efectuarem o transporte até à porta da sala do Bloco Operatório. Olha para mim e diz-me: Posso ir a pé? Gostava de ir a pé, consigo andar... ainda consigo andar. O "ainda" diz-me muito, mas ignoro metade da frase e respondo-lhe que sim, que pode ir a pé. Senta-se de imediato na maca e quase num salto quer descer. Espera Catarina, vou pedir uns overshoes para os teus pézinhos, não vais por aí descalça miúda. Ela espera sentada, de olhar atento ao que a rodeia. Vejo os minutos passarem e vejo-lhe os olhitos muito abertos a absorverem tudo o que se passa, gente de fato de circulação verde, socas de todas as cores e modelos, soquetes coloridas, corredores compridos e frios quase gélidos mantidos a uma temperatura adequada pelo ares condicionados que trepidam ruidosamente nas condutas por cima das nossas cabeças. 

Caminha agora ao meu lado. Devagar. Estendo o meu braço e dou-lhe a mão; Não precisas dar-me a mão, não sou nenhuma bebé. Claro que não Catarina, que disparate o meu, foi só um miminho se me deixares, claro. Devolve-me a mão. Entramos na sala B do Bloco Operatório assim, eu grande, ela pequenina, as duas de mão dada. Sinto-a estremecer. Tens frio Catarina? Tenho sim, mas tem que ser. O tem que ser revolveu-me as entranhas. Demasiado consciente de tudo, demasiado adulta para os seus 7 anos de idade. Fez-me calafrios a mim também e não de frio. Ajudo-a a deitar na marquesa operatória. A mesa cirúrgica está semi posta com algum do material instrumental, o meu colega que vai instrumentar a cirurgia desinfectado e pronto para a chegada dos cirurgiões ortopedistas que foram "lavar-se", a médica anestesista com o trolley de entubação e a mesa com o material anestésico ao lado para iniciar todos os procedimentos. 

O computador está sintonizado numa radio on line e toca baixinho os primeiros acordes de New York da Alicia keys, ouve-se  Uúúúúú New York, I grew up in a town that is famous as a place for movie scenes...Ouve-se uma vozinha sumida ao longe. Posso dançar? Só esta musica, posso?
Olhamos todos uns para os outros, depois todos, mas todos em simultâneo para a Dra. Fátima - a última palavra pertence à anestesista responsável pela sala. Não foi preciso esperar. Claro que sim Catarina, vamos lá dançar que esta música faz toda a gente dançar. Ninguém fica quieto, todos nós dançamos, desde o auxiliar de acção médica aos 4 enfermeiros presentes e até aos cirurgiões. Abanamos as ancas, sacudimos os braços e as pernas e agitamos o corpo em sintonia com a Catarina pequenina, ainda menina, a dar voltas e voltas no chão de vinil envolta numa bata de bloco meia aberta.

A música acabou. A Catarina foi picada, anestesiada sem um choro ou um único ai. Nunca lhe vi os olhos brilhantes ou sequer uma lágrima. Pedi-lhe que sonhasse com coisas boas, gomas de ursinhos e as férias que passou com os pais e o mano mais pequeno no Algarve e na Isla Mágica. Sofre de osteossarcoma osteoblástico de grau III, não apresenta quaisquer metástases e as hipóteses de sobrevida são muito boas por não apresentar lesões secundárias. Mas vai perder uma perna e isso nunca mais ninguém, nem nada na vida lhe poderá devolver.

Mas com a força dela, acredito que vai voltar a dançar.

(repost)

domingo, 16 de outubro de 2016

Será que é amor?




bate que bate no peito o tambor
o que será que me deu?
será que fui morto em combate?

Ou será amor?

desce no peito um frio, um calor.
o que será que me deu?
será falta de chocolate?

Ou será amor?

só sei que até as buzinas da hora de ponta parecem cantar
e até o cheiro a gasolina emana um aroma de rosas no ar

e o shopping dos olivais lembra as luzes de Paris
e até nas capas dos jornais vem que afinal, o mundo é feliz

 O mundo é feliz

dá-me um achaque, um batuque, um ataque
que piripaque me deu?

será que tou tendo um chilique?

 ou será amor?

ataca a espinha e rouba a retina
acelera o coração
será que sai com aspirina? 

ou será amor?

só sei que até as cantigas que tocam na radio apetecem cantar.
e as ervas daninhas da berma da estrada parecem jardins ao luar
e a cantora do show da manhã tem a voz que nem Elis
e o homem do telejornal diz que afinal o mundo é feliz 

O mundo é feliz.

Será que é amor  - Miguel Araújo
...
Boa noite. Sinto tanto a tua falta. 
Adoro-te miúda bate soca.

Bom trabalho. Toma conta de ti. Abre bem os olhos.
Adoro-te miúdo bate bota.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Desatar nós...




Quando a vida te doer,
canta, canta, canta!

Quem precisa de saber que tens um nó na garganta?


Fernanda de Castro



Eu desde mil novecentos e troca o passo a desatar nós. Nós embaraçados de vida, vida aos nós, nós cegos sem desenlace e cheios de desencanto que desato a custo, nós de travagem que impedem que a vida flua e nós corredios sem a mínima noção de direcção e sentido. Dedos feridos. Coração dorido. Que faço comigo? E contigo? 

E nós? Enleados em tantos nós.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Daquelas cenas do karma e do caralhinho, e sim não me venham com tretas que isso não existe... existe sim...





Tenho um amigo que é viúvo. Tem 38 anos apenas e já tem uma história de vida dolorosa e complicada. Perdeu a mulher há 3 anos vitima de um tumor endócrino do pâncreas, a tão temível doença - a da C word. Ficou com uma filha a cargo dele para criar sozinho na dura tarefa de educar e amar sem a presença da mãe e para além disso tudo e o mais importante, perdeu a mulher que amava desde os 19 anos, com quem namorou, e escolheu viver. Tem sido um processo lento este da sua recuperação emocional, da superação das dificuldades e dos obstáculos que no dia a dia se lhe vão deparando. Ou porque lhe mudaram o horário e vai precisar de contratar uma carrinha para ir buscar a miúda ( ele está deslocado da terra onde nasceu e a família, mãe, pai e irmã estão a mais de 200 km daqui ), ou porque pôs-se a passar a ferro o vestidinho de saia de tule da miúda e ficou com meio vestido, só mesmo a parte de cima, ou porque sente uma solidão gigante sem ninguém por perto, e volta e meia, ele que é uma fortaleza de gajo acaba o dias com os olhos cheios de lágrimas e a desabafar o que não queria... Detalhes.


Falo quase todos os dias com ele e estou sempre a empurrá-lo para a frente. Aos solavancos. Pelo poder das palavras que vou conseguindo dizer, algumas já demasiado batidas, outras apoiadas em clichés e frases feitas. Dando o meu melhor que é manifestamente pouco. Embora Rui, segue caminho, sai de casa, faz coisas, investe em ti, arranja uma namorada, és novo, tens uma vida de oportunidades pela frente, não podes parar de viver, não podes deixar os dias passarem por ti, ou a vida, blá blá blá de amiga que não desiste.

Há dias disse-me que tem saído com uma rapariga colega de trabalho, que ela também o tem ajudado, que é muito fixe, companheira, e que tem sido muito amiga dele e que finalmente estava a começar a seguir com a vida dele e a tentar ser feliz. Francamente interessado nela e já a pensar em avançar noutros voos. Boa Rui, é assim que as coisas começam, disse-lhe. Gosto de te saber assim.

Hoje a rapariga teve uma forte dor de cabeça, acompanhada de vómitos, desequilíbrio da marcha e diplopia - visão dupla -  foi aconselhada a vir ao hospital fazer alguns exames e medicação sos. Deu entrada aqui no meu hospital trazida por ele, acompanhei-a em alguns procedimentos, nomeadamente uma tac de crânio. Acabei de falar com o neuroradiologista de urgência, a S. tem um tumor cerebral e a equipa médica ainda está a decidir se é operável e vale a pena partir para a cirurgia apesar dos riscos, ou inoperável e faz apenas sessões de quimioterapia e radioterapia.

 Não sei como descalce esta bota.

A vida é fodida, injusta, filha da puta e mais merdas que me apetece dizer, porque quando não acreditamos em coincidências, em bruxas, em vodu, no destino, no karma, e no caralhinho mais velho chegamos à conclusão que por muito que não se queira há coisas inexplicáveis, ó ó se há!

Apontamentos a sul...



Podia ser o Utah mas é só mesmo a minha praia. Aquela onde percorro quilómetros a ouvir as minhas músicas, ou de mão dada a falar de tudo ou de nada de coisa nenhuma.



À minha volta nada. E envolta na bruma do nada uma infinidade de tantas coisas possíveis. Sabe tão bem a liberdade de se fazer o que se quer.



Tive uma sorte brutal com o tempo. S Pedro foi meu amigo, sol, agua do mar a 23 graus, boa companhia e a praia quase vazia. Para quê pedir mais se já se tem tudo.



Final do dia. O prémio por mais um dia generoso.


Dois bons vícios. Um livro e um Gin Tónico, saboreados na varanda debaixo da luz da lua, enquanto os pés descansam num colo que mima e os olhares se cruzam provocadores entre parágrafos e linhas. Olhares sem entrelinhas.


*Aconselho (a quem não tem miúdos na escola) férias nesta época - eu vou sempre nesta altura do ano.  Praias desertas, lugar sempre disponível para estacionar, estradas sem trânsito, restaurantes vazios, bom atendimento, simpatia, petiscos com fartura. Zero confusão.

E quando o S. Pedro dá uma ajuda, a escolha é perfeita!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Eu vou, eu vou...mas volto.



Foto tirada por mim 

Quase a ir de férias...
Para a Terra dos Sonhos. Terra do Nunca. My wonderland.
Volto daqui a uma semana precisamente.
...
De vida cheia de bons momentos.

"Gasta mais tempo naquilo que te faz feliz"

domingo, 2 de outubro de 2016

Troco-me toda...





Ofereci-te tanta coisa. 
A mais preciosa, 
aquela que há muitos anos não dava a ninguém
 - a mais preciosa, repito,

foi a minha absoluta disponibilidade para estar contigo, ouvir-te, ou estar em silencio perto de ti.

Al Berto



eu dou. tu dás. nós damos. ambos damos. e vamos calmamente jogando este divertido jogo de dar e receber numa doce troca. troco os meus abraços por pasteis de nata quentinhos num estacionamento de hospital, troco um fim de semana já marcado há muito com os meus amigos pela loucura imprevista num spa de hotel num fim de semana a dois, troco sonoras gargalhadas por caricias proibidas numa longa e interminável viagem de carro, troco mimos teus por mimos meus em palavras; chamo-te cabeçudo, troll, matraquilho, parvalhão enquanto tu me chamas, fofa, amor, jeitosa e mais merdas lamechas e peçonhentas que me deixam apavorada de tão pirosas que são, troco cocegas por um avio de murros e pontapés acompanhados de riso, troco sexo à camionista pelo gosto tanto de ti miúda trocado no final. troco o deixar-me ir pelo fazeres-me vir. contigo troco-me toda.